A sociedade líquida

Karl Marx, na sua conhecida obra “O Manifesto Comunista” (1848), lançou uma frase tão perturbadora quanto o próprio comunismo que então se anunciava: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. O que Marx queria dizer é que, naquela época (o século 19), todas as estruturas históricas, até então solidamente estabelecidas, começavam a se desmanchar com o advento de um novo tempo de revoluções. Ele não estava errado, pois de lá para cá o mundo nunca mais seria o mesmo. Depois de muitos sonhos e revoluções, o comunismo literalmente desmoronou-se juntamente com a queda do Muro de Berlin (1989), inaugurando, a partir de então, uma nova era: a era da modernidade líquida. Trata-se de um conceito criado pelo pensador polonês Zygmunt Bauman, que tem uma vasta produção de estudos que tratam das incertezas da vida no período pós-moderno.
Para Bauman, a vida na pós-modernidade perdeu a solidez das certezas que historicamente marcavam a trajetória humana. Bauman chama esse fenômeno de “modernidade líquida”. Líquida porque não tem mais forma e, num mundo cheio de possibilidades, vai se amoldando a qualquer situação, ao contrário das sociedades antigas que planejavam a vida e estabeleciam metas sólidas para o longo prazo. Hoje, com avanço das tecnologias e com a exacerbação do consumo, tudo ficou mais rápido, porém menos sólido: é possível fazer amigos com a rapidez da internet – mas, esses “amigos” somem da mesma forma como chegaram -; a família já não é mais tão sólida e unida como era; a fragilidade e a incerteza se estendem às relações amorosas, a política, a religião, etc.
Neste mundo de incertezas, em que as relações sociais e as instituições são fluidas e líquidas, as pessoas vivem assoladas por dúvidas, ansiedade e depressão. A sociedade pós-moderna estabeleceu um padrão de felicidade que a maioria se sente incapaz de alcançar. Em suma, para Bauman, a sociedade pós-moderna passou de uma fase “sólida”, em que havia projetos simples para a vida toda, para uma fase “líquida”, em que as pessoas têm a sensação de poder sempre “começar de novo”, num ambiente de múltiplas possibilidades. Como exemplo disso, Bauman cita o caso de um operário que, no passado, ficaria feliz em trabalhar a vida toda numa montadora de automóveis, pois isso era uma sólida expectativa de vida. Hoje, sua preocupação é não perder o bonde da história, diante das rápidas mudanças que se produzem ao seu redor.
Nesses tempos de sociedade líquida, em que as formas de atuação mudam antes que possam se solidificar, Bauman vê o surgimento de um novo tipo de herói: os chamados “triunfadores egoístas”: pessoas ágeis, ligeiras, egoístas, sempre em busca de poder, fama e dinheiro, que valem somente pelo que elas têm, e não pelo que realmente são. Dessa forma, os valores mais importantes da vida acabam submergindo num processo em que tudo pode ser transformado em mercadoria, disponível para o consumo imediato: o amor, as relações pessoais, e, um último caso, até as próprias pessoas. Esse é o cenário amargo dos tempos atuais, em que os valores tradicionais de há muito foram deixados para trás.

Categorias: Artigos,Contraponto