O outro lado da montaria

Arquibancadas, camarotes e bretes lotados. Na arena, peões tentam se manter por oito segundos sobre touros puladores de mais de uma tonelada. Esse é o mundo do rodeio, que atrai um público estimado em 30 milhões de pessoas no Brasil e que movimenta em torno de R$6 bilhões anuais. Além dos touros e cavalos, as grandes estrelas do rodeio são os peões, que fazem desta vida uma arte. Vida de peão exige determinação, coragem e amor à profissão. É o que dizem os competidores Rubens Barbosa, de Monte Aprazível, e Diego Fernando Sandre, de Pompéia.
Rubens, tem 32 anos e monta há 15 anos. Diego, tem 27 anos e monta há 10 anos. Rubens Barbosa já foi campeão dos mais importantes rodeios do Brasil e compete também nos EUA, onde venceu importantes competições. Diego Sandre tem currículo semerlhante no Brasil e acumula oito motos em prêmios.
Para eles, a sensação que sentem nos 8 segundos em que estão sobre o touro, é de parar no animal. Rubens diz que “são pensamentos muito rápidos, de defesa, porque o foco mesmo é de equilíbrio para parar os 8 segundos. Eu faço o máximo para me segurar em cima do boi até a companhia tocar”, diz. “Tudo que me passa pela cabeça é parar o tempo regulamentar, não passa mais nada na minha cabeça”, comenta Diego.

Muita fé e preparo
Os peões admitem os riscos da profissão, mas não se atem a eles alegando terem fé em Deus. “O risco da montaria não está na hora em que abre a porteira e nem durante a montaria em si, mas na hora em que vai sair do boi. Tanto que todas as vezes que me machuquei foi na saída do boi. Daí a importância dos salva vidas na arena”, diz.
Ele diz ainda que até pensa no risco, mas que não o leva em consideração. “Tenho uma fé muito grande, acho que o que tiver que acontecer, acontecerá em qualquer lugar, seja montando em boi, seja atravessando a rua. A gente sabe que é perigoso, mas quando confia em Deus sempre busca a ele, isolando pensamentos ruins”. Diego também diz não se ater aos riscos da profissão. “Independente de tudo, eu amo o que eu faço”.
Numa profissão em que só é remunerado se vencer o rodeio, a instabilidade financeira é grande. Rubens diz que “o rodeio é muito difícil, porque os peões têm gastos com alojamento, combustível, alimentação. Eu já passei por precisão quando me machuquei. Além disso, participo de competições no exterior, que remunera melhor o peão que no Brasil. Hoje consigo administrar o meu ganho com meu orçamento doméstico”.
Diego reconhece que há altos e baixos na remuneração, mas afirma conseguir viver somente de rodeios. “Tem hora que estou com o bolso cheio, tem hora que estou com bem pouco, mas vazio meu bolso nunca fica”, revela.
Rubens participa em média de 45 rodeios por ano, sendo a maior parte deles nos estados Unidos, onde reside com a mulher e a filha. Ele monta de janeiro a novembro no Built Ford Tough Series, um campeonato da 1ª divisão dos Estados Unidos e durante do break, em junho e agosto, monta em rodeios no Brasil. Diego monta apenas em rodeios nacionais. Diz participar de cerca de 35 rodeios por ano.
Rubens Barbosa monta nos Estados Unidos, mas já competiu também em rodeios na Austrália e afirma que, apesar das regras serem as mesmas, existem grandes diferenças entre as provas nacionais e as do exterior. “O rodeio dos Estados Unidos está uns 25 anos na frente do rodeio brasileiro. Lá os peões são reconhecidos tanto financeiramente como socialmente. Peão nos Estados Unidos é reconhecido nacionalmente, pois os rodeios são transmitidos em todos as companhias de televisão, o que dá visibilidade ao peão. A premiação lá é maior, gira em torno de 30 mil dólares, cerca de 100 mil reais, por campeão de cada evento, aqui os prêmios giram em torno de R$ 15 mil a R$ 20 mil numa etapa da PBR.”

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