A cara da cara do Brasil

Não vai ter Copa! Teve! Olímpiadas? Será um fracasso monstruoso! Estamos procurando o desastre, anunciado pelo tipo mais ranzinza dos brasileiros, que cruzou os dedos para que tudo fosse por água abaixo e o mundo inteiro descesse a lenha no nosso jeito de levar tudo para a última hora, para o último metro, a última braçada. E no fim das contas, nesta mistura de pressa, ânsia e jeitinho brasileiro que não nos abandona e nós também não abrimos mão, as Olimpíadas chegam ao fim neste domingo, com muito mais pontos a se celebrar do que lamentar.
Na nossa construção olímpica, ao contrário da música de Chico Buarque, a gente não morreu atrapalhando o tráfego. As arenas e estruturas de competições têm funcionado muito bem, assim como a locomoção pelo Rio de Janeiro com o transporte público, algo inimaginável alguns meses atrás. O brasileiro se ligou que este tipo de transporte é indispensável para grandes cidades, e da para ir além, e defender que médios centros também precisam investir em maneiras de o carro não ser o protagonista de tudo.
A cara multiétnica do brasileiro também acolheu e maravilhou os estrangeiros. Essa mescla excêntrica de Elke Maravilha, Carmen Miranda, Cartola, Pelé e João Havelange também assustou a muitos no comportamento explosivo e passional na maneira de torcer e empurrar os atletas brasileiros. E principalmente em 2 momentos: durante a disputa do salto com vara masculino, com vitória do brasileiro Thiago Braz sobre o francês Renaud Lavillenie, e no embate no vôlei masculino entre Brasil x Argentina, quando o Maracanãzinho virou Maracanazão. O torcedor brasileiro, em sua maioria, tem a carga máxima do futebol para torcer, com xingamento, apoio e barulho. Não é nem certo nem errado. É um jeito de torcer.

A história tatuada aqui
Os primeiros Jogos da América do Sul também serão lembrados para sempre por figuras lendárias e extraterrestres do esporte, como o nadador Michael Phelps e suas 25 medalhas olímpicas, e a velocidade imparável do jamaicano UsainBolt, único atleta a vencer 3 vezes os 100 e 200 m.

Junto com este panteão de heróis do suor e da superação, o Brasil aprendeu a se familiarizar com atletas ainda pouco badalados, como o baiano simpatia Isaquias Queiroz, o canoísta vencedor de prata e bronze, a firmeza doce da ginasta Flávia Saraiva, e o soco potente e de ouro de Robson Conceição, nomes que ajudaram a delegação de mais de 400 atletas brasileiros a conseguirem um salto muito significativo de performance olímpica. No quadro de medalhas, o Brasil segue em 13º, com 5 ouros, e deverá no máximo alcançar o 11º lugar em caso de medalhas douradas no futebol, canoagem e vôlei. Antes do início dos Jogos, a meta do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) era por o Brasil entre os 10 melhores, com participação de 22 a 27 pódios.

A colocação final de um país, na verdade, vale muito mais para o comitê e federações esportivas, que pode alardear seu trabalho e conquistas com patrocinadores, torcedores e captar mais recursos. No caso do Brasil, sediar esta Olimpíada deve servir para muito mais, e ser utilizada como uma mola propulsora para tentarmos desenvolver o esporte lá na raiz de uma vez por todas.

Xô à monocultura no apagar das luzes

O Rio de Janeiro já vem aproveitando algumas obras que melhoraram a cidade, e que sem os Jogos, muito provavelmente nunca sairiam do papel, como o metrô até a Barra da Tijuca, a revitalização do centro e a nítida melhoria da malha de transporte público. Mas além da estrutura física, tanto o Rio quanto o Brasil podem se beneficiar desta boa onda e efetivamente iniciarem o desenvolvimento sério de modalidades além do futebol, a nossa monocultura, a nossa cana-de-açúcar esportiva. O Brasil, um país onde nas escolas não se oferece o esporte como uma disciplina séria e estruturada, precisa dar esse passo para crescer como nação e ter cada vez mais brasileiros inseridos na sociedade por meio do esporte.

As Olimpíadas chegam ao fim. As Paralimpíadas ainda vem. É óbvio que os problemas do Brasil seguem ai, escancarados, indecentes e à mostra. Mas conseguir montar e entregar para o mundo um evento desta magnitude é o sinal mais do que claro da capacidade do brasileiro em fazer e também, em ser protagonista. Por mais que haja síndrome de vira-lata e pequenice aguda em muita gente, o país que samba e rala muito é sim motivo de orgulho e um convite a torna-lo ainda melhor.

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