A bomba continua salgada

Mesmo com anúncio de redução de 5% do diesel e gasolina feito pelo governo, medida não tem data para chegar ao consumidor. Etanol também aumenta de preço e preocupa setor

A redução nos preços da gasolina, anunciada pelo governo esta semana, pode ser encarada, em princípio, como uma boa notícia para os produtores de etanol, mas não soluciona os problemas enfrentados pelo setor.

A decisão da Petrobras é boa, pois o governo começa a dar previsibilidade à política de preços dos combustíveis. Mas, segundo o presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Monte Aprazível (Aplacana), Márcio Miguel, é cedo para uma avaliação de como essa queda vai afetar o etanol, e de quanto a redução promovida pela Petrobras vai chegar à bomba. Mercado é mercado e, no meio do caminho, os diversos segmentos envolvidos na cadeia podem se apropriar de parte dessa queda.

Além dos impostos, distribuidoras e postos podem elevar a margem de ganho no processo. Mas a Petrobras vai dar previsibilidade aos preços, uma exigência do setor sucroalcooleiro nos últimos anos. No entanto, de acordo com Márcio, só a previsibilidade não basta. Falta, ainda, política de longo prazo para o setor, evidenciando as qualidades desse combustível limpo e menos prejudicial à saúde.

Márcio explica que no governo Lula (2002-2010) o preço da gasolina era atrelado ao preço do barril de petróleo no mercado internacional. Depois, no período Dilma, de 2010 a 2014, houve a intervenção do governo, quando se comprava gasolina num valor muito mais caro para abastecer o mercado interno e se subsidiava o valor da gasolina para a população”.

“Agora – prossegue – o Temer voltou ao que era praticado até 2009, só que mesmo assim, o governo não consegue diminuir o preço da gasolina porque falta etanol no país e reserva financeira para comprar gasolina e diesel e colocar no mercado interno, além do fato de que toda gasolina que o governo importa afeta a Petrobrás, que agora começa a recuperar seu caixa”.

Ele diz que a medida tomada por Temer representou um avanço mas não ajuda o setor em praticamente nada. “O que o setor precisa é de políticas claras na questão da matriz energética. O Brasil é o maior produtor de etanol do mundo, que é um combustível renovável e depende da gasolina, que é um combustível fóssil”.

Etanol não é tão valorizado quanto merece, segundo Márcio

O presidente da Aplacana ainda se queixa pela não-valorização do etanol, que segundo ele, é a matriz energética brasileira, e faz com que o Brasil perca tanto economicamente como ambientalmente. “Ambientalmente, por se tratar de combustível totalmente renovável e que agride muito menos o meio ambiente e economicamente porque poderia se criar uma política de estoques e armazenamento controlando de forma efetiva os preços e os custos de produção”.

Márcio enfatiza que o produtor deseja manter um preço estável e conseguir manter o custo de produção e a permanência da atividade. Assim, não é essa volatilidade que existe no mercado, em que uma hora o preço estoura e em hora quebra o setor”.

Mas ele sabe que a perspectiva está longe de se concretizar, porque a Petrobrás, de acordo com Miguel, é uma das maiores empresas brasileiras e que desde quando instituída foi bem aceita pela sociedade, vai totalmente contra as questões ambientais e de sustentabilidade.

Combustíveis mais caro preocupam empresários e consumidores

Diante do anúncio do governo de redução da gasolina e do diesel em 5%, esperava-se uma diminuição em torno de R$ 0,05 no litro da gasolina. Mas ocorreu que a gasolina e o diesel não baixaram. E pior, houve explosão no preço do etanol, que chegou a aumentar em até R$ 0,40 nas bombas, devido à falta de produto no mercado. Mitú Nagata, do Posto Nagata, Adhemar Ferreira Junior, do Posto Elefantinho e Luiz Henrique Vergílio, do Stop Auto Posto, explicam o que aconteceu.

Mitú conta que as usinas tem preferido produzir açúcar ao etanol, porque o açúcar atualmente está mais rentável que o álcool, por isso o etanol subiu e a gasolina também R$ 0,05, visto que a gasolina é adicionada de 27% de álcool anidro. “O diesel acompanhou a alta da gasolina. Subiu tudo e a gente repassa ao consumidor o que recebe da distribuidora”.

Adhemar Junior confirma a preferência das usinas pela fabricação do açúcar em detrimento ao álcool. “O preço do açúcar está muito bom. Em relação ao ano passado, dobrou de preço. Com isso, as usinas estão fabricando mais açúcar e menos álcool anidro, que é misturado à gasolina, e hidratado, que é o vendido nas bombas”.

Ele ressalta que a alta do etanol coincidiu com o anúncio de queda na gasolina e no diesel, então, ao invés de baixar o preço da gasolina, ele subiu, já que ela é adicionada de 27% de álcool anidro. Já no diesel, as distribuidoras não repassaram a baixa anunciada pelo governo. “Atualmente, eles não têm essa obrigação porque o preço dos combustíveis é livre, ao contrário do que acontecia quando o preço era tabelado”.

Luiz Henrique diz que apesar do anúncio de baixa no preço da gasolina, o combustível teve aumento. Ele conta que os fornecedores justificam o aumento em razão da alta do preço do álcool, que é adicionado na proporção de 27% à gasolina. “Como houve alta do etanol, aquela queda anunciada não aconteceu, porque o aumento do etanol forçou a alta da gasolina”.

Luiz Henrique também concorda com a opinião dos outros empresários, e explica que o açúcar, vendido no mercado internacional em dólar, faz com que as usinas produzam a quantidade mínima de etanol prevista em lei. O resultado é o aumento do preço do etanol de modo que incentive as usinas a produzir etanol também”. O que não tem explicação, segundo ele, é o aumento do diesel, que não possui adição de etanol e ainda assim teve seu preço reajustado para cima.

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