“A produção online no Brasil ainda é muito precária”

O publicitário e jornalista Marcelo Bechara Frange, que recém lançou o livro A Produção do Jornalismo Esportivo na Internet, pela Editora Appris, conversou com A Voz Regional sobre a obra, a pesquisa para se chegar até a ela e como ele enxerga o atual cenário da produção online em esportes no Brasil

A Voz Regional: Além do livro sobre a produção do jornalismo esportivo na internet, o que mais você tem feito relacionado ao esporte? 

Marcelo: Atualmente, tenho trabalhado com marketing junto com a Nike. Eu ajudo em ações de futebol, onde levamos seções de treinamentos e treinadores especializados pela marca para algumas comunidades e campos de futebol. Aqui em São Paulo, um dos lugares em que fazemos isso é no Corinthians, um dos clubes patrocinados pela Nike. Fora isso, eu vivo em contato permanente com o esporte, com enfoque em mídias sociais e captação de patrocínios para atletas. Eu e um amigo iniciamos um projeto de empresa para dar suporte nesta área e atrair patrocinadores.

 Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o tema? Você acha que ainda existe pouca bibliografia sobre o tema ou tem se falado muito do assunto? Como você vê a produção/cobertura esportiva no online brasileiro?

A ideia do livro no período em que eu estava na Cásper Líbero. E durante as pesquisas, alguns professores conversaram comigo e viram potencial para o material virar um livro. Eu também passei a achar isso, pois encontrei muito poucas referências sobre o tema de como o jornalismo esportivo é feito na internet. Durante os mais de dois anos de pesquisa, eu pude ver que a produção online no Brasil ainda é muito precária. Te dou o exemplo do site da ESPN, que para mim era um site que buscava a notícia com qualidade, e nos últimos tempos, tem partido para o sensacionalista e a audiência pela audiência. O Globo Esporte, que era uma referência, principalmente para cravar a contratação de um jogador, tem dado bastante “barrigada”, que é o termo que se usa no jornalismo quando se dá uma informação errada. Outra coisa que eu enxergo é que os veículos online têm dado muita ênfase no lado celebridade dos atletas, além dos textos serem cada vez mais mal redigidos. Não se cobra muito em qualidade do que se lê na internet, e isso é preocupante, pois ela é uma ferramenta que pode ser bastante explorada.

Como foi feita a pesquisa para o livro? E quais são os principais pontos dele? 

Muita leitura, eu diria. Busquei muitos autores que me ajudassem a auxiliar no que eu queria escrever e defender no livro, como o francês Guy Debord e o alemão Valter Benjamin. Eu quis aliar esses pensadores tradicionais com jornalistas esportivos conceituados, como o Paulo Vinicius Coelho e o Celso Unzelte, além de pessoas do mercado, como assessores e historiadores. Uma das questões que eu quis abordar no livro é a questão da convergência de mídia, como o vídeo e o texto. Hoje em dia, não é preciso fazer um texto tão extenso sobre uma partida de futebol, se você tem os vídeos disponíveis para ilustrar. Outra questão que eu abordo é de como o trabalho se tornou mais mecânico com as agências de notícias. É o formato copiar e colar, que transforma a informação em algo padronizado, igual. Também é preciso falar sobre como a publicidade no online faz com que se precise apelar cada vez mais para o sensacionalista. Você entra de graça em um site para ler as notícias e poucos veículos têm ferramentas para assinantes. Ai é uma missão difícil para gerar dinheiro sem depender do anunciante/patrocinador.

A cobertura esportiva tem sido feita por cada vez mais um número maior de sites, blogs e influenciadores digitais. Mas existem ainda as grandes histórias, como de denúncias, política no esporte e os megaeventos esportivos, que demandam mais tempo e apuração. Como a internet pode colaborar ou também, abreviar certos fluxos e “empobrecer” a cobertura da TV ou impresso?

A internet só tem a colaborar, e não empobrece a cobertura do jornal ou da TV. O que eu vejo é que as outras mídias precisam se adaptar ao que a internet já publicou. Se hoje a tarde o Real Madri jogou e empatou, não adianta o impresso dar só o resultado. O online já o fez. O melhor caminho é se fazer uma análise mais analítica do fato, e separar o que é factual do que é a opinião, a análise. Eu acredito que tanto o impresso quanto a TV precisam caminhar cada vez mais para isso.

Como é sua relação com a produção online e de mídias sociais no esporte, e como utiliza essas ferramentas no seu dia a dia? 

Eu tive a ideia de fazer o livro porque eu fiz parte disso. Eu já trabalhei em redações online, e não concordava com o que eu fazia, e decidi não continuar. Eu me tornei mais crítico quando leio uma matéria em um site e vejo que ela tem potencial, mas que não foi aproveitada, por uma séria de motivos como pressa, menos tempo para apurar, necessidade de manter o site sempre atualizado. Hoje, utilizo mais as redes sociais, como o Twitter, e é nelas que aproveito para dar minhas opiniões sobre o mundo do esporte também.

E onde pode-se encontrar o livro? 

O pessoal pode comprar nas Livrarias da Vila e Livraria Cultura, em São Paulo e também pelo site da Amazon, em versão física e digital, para Kindle. O valor é R$ 46.

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