A república do T

O mundo andou, se liberalizou, é clima de século XXI. Mas é bom voltar à realidade e enxergar que as coisas não estão nem tão ao céu quanto ao mar

O tempo é de euforia, surpresa, apreensão, frustração, lágrimas, alegria e rancor. Nada surpreendente, se encararmos que o globo azul sempre girou desta forma. Mas o clima de espanto e boca aberta, para muitos, é preciso berrar e espernear, digitalmente, porque os Estados Unidos elegeram Donald Trump como o 45º presidente da nação que, quer queiram ou não, é a balança que faz o globo girar para o bem ou para o mal.

Trump, eleito democraticamente pelo sistema confuso das eleições americanas, no qual o número de delegados por estado define o próximo mandatário, pondo em segundo grau de importância o total de votos populares. Antes de tudo, é preciso ressaltar que lá no país da Disney de Orlando, votar não é obrigatório. Vai quem quer. Pensando assim, ponto para o empresário de cabelo desengonçado e pele laranja de bronzeamento, que inverteu a lógica que dava a vitória certa de Hilary Clinton, e motivou muitos eleitores pró-Trump a irem às urnas do que os eleitores da mulher do ex-presidente Bill Clinton. Ué? Mas se os votos dos eleitores vale menos do que o número de delegados conquistados, por quê o topetudo ainda venceu? Os números abaixo ajudam na explicação.

Os republicanos, liderados por ele, obtiveram 279 delegados, sendo que 270 já são suficientes para se eleger presidente. Os democratas, liderados por Hilary, levaram 228. Na votação popular, deu Clinton, com 47,6% x 47,5 de Trump, o que representa menos de 300 mil votos de diferença. A turma do partido republicano ainda obteve mais governadores (33×15), senadores (51×48) e na Câmara (239×193). E para não restar dúvida, os “vermelhos” ainda venceram na Flórida, estado considerado crucial para qualquer um que deseja entrar na Casa Branca.

A terceira guerra vem ai!

Para os profetas e anunciantes do apocalipse no Facebook ou qualquer rede social ou pessoal que seja, vamos embora do mundo, pois ele acabou com a eleição de Trump. Calma! Antes de tudo, Donald e uma das figuras mais bem sucedidas do mercado financeiro, e conseguiu atingir um eleitorado nos EUA formado por homens e mulheres brancos e também negros, concentrados mais a Meio-Oeste, como no estado de Kentucky, Wyoming e Michigan, muito preocupado com o desemprego e a migração das empresas para a Asia, em especial a China, e a grande quantidade de imigrantes ilegais, que na visão deles, `roubam` as vagas de trabalho deles. Fora este ponto, o novo presidente não representa os políticos profissionais, com anos de carreira dedicados a isso. João Doria, eleito prefeito de São Paulo, também vem do mercado financeiro e representa esta categoria de gestor que se embrenha nos assuntos e dia a dia da política. Para os mais espertos e vividos, o sinal de que as maneiras de se fazer política tem sido cada vez menos bem vistas pelo povo, que começou a votar em perfis mais novos neste universo. Basta lembrar que se fala em Hilary Clinton constantemente desde o inicio dos anos 1990.

E para os românticos de plantão, infelizmente, e necessário dados pouco amorosos. Ao longo do governo Obama, entre 2009 e 2015, foram deportados mais de 2,5 milhões de imigrantes ilegais. E desde 1994, um muro entre os EUA e o México vem sendo construído ou desenvolvido. E começou justo no governo? Sim, com Bill Clinton, com a mulher ocupando cargo de senadora. Trump não deve mudar muita coisa do que os Estados Unidos já vem fazendo. Seu jeito falastrão, grosseiro e machista não pode ser confundido com os desafios que ele terá ao se sentar na cadeira presidencial, em 20 de janeiro de 2017.

Seja Trump ou Hilary, os EUA vão sempre pensar neles em primeiro lugar. O mercado livre e a globalização não tem mais recuo em nossa atualidade, mas muitos governos, na busca de proteger e se desenvolver internamente, vão apelar para o nacionalismo exacerbado, como o slogan de campanha `Make America Great Again` (Tornar a America Grande de Novo) e `fechar a casinha` da economia e do bem estar da população de la.

O que deve-se ficar de olho bem vivo e nos novos capítulos da relação EUA e Russia. Vladmir Putin, outro nacionalista exacerbado, e obcecado com a reconstrução da Grande Russia, aprovou Trump na Casa Branca, e sinalizou mais conversas com o pais. E como se sabe que a frase de que não ha virgem na zona, todo cuidado e pouco, e onde ha dinheiro em jogo, o desaforo vai embora.

O T sul-americano 

Aqui no Brasil, que no próximo dia 15 de novembro, completa 127 da proclamação da Republica, o governo de Michel Temer se apressou em dizer que a eleição de Trump nos EUA não devem interferir no bom relacionamento entre os países. E realmente não deve haver grandes mudanças, mesmo que muitos insistam em dizer que Donald ofendeu os brasileiros, e os chamou de `porcos latinos`. Ofensas assim não são exclusividade dele. Os Bushs também foram pródigos em ofender os vizinhos de continente e países afora, e os EUA não destruiram o mundo.

O que se pode dizer e constatar e que existe uma guinada forte para a direita e o centro, com políticos mais conservadores e mega empresários que adentram a política e tem ideias de uma sociedade mais liberal na economia, com um Estado menor e menos social, e mais preocupado em gerar receitas e manter apenas os serviços básicos. Assim como no Brasil quanto nos EUA, tais mudanças só se tornarão realidade ou não com o tempo. Ambos vivem em sistemas democráticos, sejam frágeis ou não, e ainda que não se concorde com quem esta no poder, o protesto e ações políticas contrarias tem espaço e devem ser fomentadas e brigadas.

Se passaram 72 horas desde Donald Trump foi eleito e o mundo não acabou. E não deve acabar por agora mesmo.

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