Em nome da fé, se perpetuam tradição e devoção

Festa de Reis reuniu mais de 20 companhias e milhares de devotos para adorar e consumir  2 toneladas de comida e 1.7 mil litros de refrigerante

Cores, fitas, bandeiras e cantos. A recriação musical dos Três Reis Magos e o nascimento do menino Jesus pelos grupos de Folias de Reis tomou conta do entorno da capela de Santos Reis em Monte Aprazível no domingo, no 31º Encontro de Bandeiras da cidade.

Antônio Aparecido Minuci, presidente das festividades de Santos Reis, da capela que leva o mesmo nome, se apresentaram mais de 20 companhias no Encontro de Bandeiras e teve um público presente de mais de cinco mil pessoas. Para receber os foliões e devotos foram servidos 17 mil pães recheados com cerca de 500 quilos de carne moída e 1,7 mil litros de refrigerantes. Os recursos para estas despesas, segundo Minuci, são provenientes da própria quermesse realizada desde o último dia 6, de apoio da prefeitura e de doações da comunidade.

Além dos pães com carne, os organizadores serviam almoço aos foliões. Minuci calcula entre 700 a 1 mil refeições a foliões e integrantes das companhias.

Para fazer comida para esse batalhão de gente, os organizadores do evento contam, segundo Minuci, com cerca de 70 voluntários. “São devotos e pessoas da comunidade que se dividem entre fazer comida, encher os pães com carne, distribuir os pães, os refrigerantes, servir as refeições, cuidar dos detalhes da apresentação das companhias, realizar a quermesse, enfim, realizar todos os trabalhos que o dia requer”.

Particviparam companhias de Olímpia, “que vai cantar durante a missa, a de Guararapes, a de Zacarias, de Sebastianópolis do Sul, Tanabi, Mirassol, Potirendaba, Cajobi, Rio Preto, Gastão Vidigal e outras cidades.

O Encontro de Bandeiras começou às 9h30 com a celebração da missa, seguida  da apresentação das companhias, que receberão um troféu de participação e DVDs com a missa e a apresentação de cada uma delas. O Encontro terminou por volta das 20h.

UM CASAL DE PURA FÉ

Maria Trídico de Paula e o marido Tolentino de Paula, popularmente conhecido pelo apelido de Barba, ambos de 68 anos, são devotos dos três Reis Santos desde muito jovens. Herdaram a devoção de seus pais e deram continuidade à tradição de fazer chegadas de Reis anualmente.

Eles contam que desde que se casaram, aos 18 anos, começaram a fazer as chegadas de Reis. “A gente faz promessas para nossos familiares e depois cumpre, porque os Reis Santos são muito milagrosos”, diz Maria, contando que realiza as chegadas desde quando ainda morava na cidade Nhandeara. “Mas em Monte faz mais de 30 anos que a gente faz a festa, desde quando mudamos para cá”.

Eles realizam a festa sem apoio da igreja, de forma privada. Os recursos são provenientes de doações de devotos e da comunidade por onde Maria passa com a Bandeira e deles próprios que complementam com dinheiro do bolso. “Eu faço o giro com a Bandeira e aceito as ofertas que puderem dar, dinheiro e mantimentos, juntamos tudo para a festa. Aí completamos com dinheiro nosso porque servimos almoço e jantar, além da mesa dos anjos, composta de frutas e doces”, conta.

Barba e Maria dizem não ter idéia do número de pessoas que comparece à festa, mas afirmam que lota a rua em frente a casa deles, onde a chegada é realizada. “Nós montamos o presépio e o altar na varanda de casa e os arcos na praça (do bairro Jorge Carneiro de Campos). A rua e parte da praça ficam cheias de gente. É maravilhoso de ver”, diz Barba emocionado.

A chegada de Reis do Barba e da Maria está agendada para o dia 25 de fevereiro.

O CERIMONIAL DA DEVOÇÃO

Um mestre de cerimônias é o anfitrião oficial de um evento. Normalmente, ele faz o anúncio das apresentações e entretém a platéia para que a cerimônia siga o rumo esperado da melhor forma possível. Esta tarefa pode parecer assustadora, mas não para Flauzino Marques de Oliveira, o popular Nhô Moço, 80 anos, mestre de cerimônia oficial da maioria das festas de Santos Reis na região de Monte Aprazível.

Nhô Moço é devoto de Santos Reis e São Sebastião e conta que a devoção a Baltazar, Belquior e Gaspar começou aos 7 anos, quando começou a cantar com foliões que moravam próximo a sua moradia. Desde então não parou mais de participar de folias de Reis. “Cantei por muitos anos numa companhia, mas de uns 30 anos para cá, comecei a apresentar encontros de bandeiras”, diz.

Ele faz em média 25 festas de Reis por ano. As principais da região são, segundo ele, a de Olímpia, “cidade que tem 12 companhias de Reis”, Potirendaba, “festa enorme que matam 17 cabeças de gado para o almoço dos foliões e devotos”, Poloni, Monte Aprazível, Mirassol e Auriflama.

Nhô Moço tem uma agenda concorrida. Este ano ele já apresentou no dia 6 a festa de Mirassol, no dia 7 a de Potirendaba, no dia 14 a de Olímpia, no dia 15 a de Turiuba, no dia 21, numa fazenda em Macaubal, amanhã tem agendada a de Monte Aprazível e no próximo dia 5 de fevereiro tem agendada a festa de Poloni. “Terminando a quaresma tenho festa agendada em Sebastianópolis do Sul, Zacarias e Nhandeara”, conta. Ele não cobra cachê para os eventos, diz que os organizadores costumam fornecer o combustível para seu deslocamento.

Quanto à manifestação popular Nhô Moço diz que está maravilhado. “Há alguns anos as companhias de Reis estiveram em baixa, mas hoje com o apoio dos prefeitos e adesão de jovens e crianças as companhias voltaram a crescer. Percebo que vem aumentando o entusiasmo e a devoção aos Reis Santos. Antigamente era manifestação apenas de periferias, hoje vem se espalhando entre proprietários rurais e pessoas das mais diversas classes sociais da cidades e isso me deixa muito feliz. As pessoas nos procuram para fazer doações  de prendas. Isso é maravilhoso”, diz.

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