Histórias do tempo em que existiam lobisomens

O “pecuarista criador de saci”, Jocelino Soares,  e o historiador Luiz Carlos Canheo provam com fatos memoráveis que homens lobos existiram

Antigamente, quando era Quaresma, as pessoas não saiam a noite, dormiam cedo e não jogavam jogos de azar, ao contrário dos dias de hoje. Eles tinham medo de encontrar com o lobisomem.

O escritor e contador de causos Jocelino Soares diz que seus avós e seus pais contavam a estória de um vizinho de sítio que tinham uma criança pequena e que não levaram para batizar. “Naquela época era obrigação batizar a criança até os sétimo dia, caso contrário o lobisomem vinha comer a criança – conta – Os pais esquecendo-se disso foram visitar um compadre que também tinha uma criança recém-nascida e que morava do outro lado do rio”.

“Meus pais e meus avós contavam que eles enrolaram a criança igual a um charutinho num cobertorzinho vermelho e foram visitar os compadres numa Sexta-Feira Santa e de lua cheia. Na volta, era comum o homem andar na frente e a mulher atrás, depois que passaram pelo rio, a mulher viu no meio do cafezal um vulto correndo arcado em sua direção e gritou por socorro, o lobisomem saltou na mulher para comer a criança, mas o pai lutou com ele dando facãozadas e ele não conseguiu comer a criança, apenas arranhou com os dentes o cobertorzinho vermelho no qual a criança estava embrulhada”.

“No dia seguinte – prossegue – o compadre foi conversar com o pai da criança que percebeu que o compadre tinha o braço ferido e um fiapo vermelho entre os dentes e julgou que ele era o lobisomem. O casal mudou-se dali e nunca mais voltou àquele sítio”, conta.

O historiador e também contador de causos Luiz Carlos Canheo também lembra de uma estória de lobisomem contada por seu tio Antônio Tula. “Ele contava que em uma fazenda perto da sua, um jovem arrogante esnobava em uma baratinha do ano 1927 que seu pai comprara para uso da família. Desfazia dos outros jovens e mesmo da maior parte das meninas. Membro de uma família de origem católica praticante, ele dava uma de ateu, zombando de todos, inclusive em casa, deixando seus pais tristes e apreensivos”.

Naquela época, diz Canheo, quando se aproximava a Quaresma era o maior respeito, “ninguém programava brincadeiras dançantes ou bailes. Os jovens só saiam de casa acompanhados dos pais para participarem de solenidades religiosas. Andavam a pé, a cavalo ou de carrinho puxado por cavalos. O medo dominava os jovens, pois no período da Quaresma o assunto mais corriqueiro era a presença de lobisomens nas estradas. O simples estalo de um galho seco pisado nas estradas era motivo de alvoroço”.

“O jovem arrogante da baratinha – prossegue – passou pela família, parou o veículo e ao invés de oferecer carona para os pais, disse não vou levá-los porque já prometi carona para dois lobisomens. A família parara na entrada de uma propriedade e ficou a ouvir os cânticos para as almas, comum naquela época, depois seguiram caminho até chegarem à porteira de entrada do sítio. O cheiro de enxofre era terrível. A porteira estava aberta. A baratinha com as portas abertas e as luzes acesas aguardava o motorista, que desaparecera. Naquela noite ninguém dormira. O motorista apareceu dali uma semana, magro e irreconhecível. Voltou humilde, sereno e amigo de todos. Nunca contou o que acontecera e nunca mais entrou na baratinha”.

Canheo conta que perguntado ao tio Antônio Tula o que poderia ter acontecido ao jovem prepotente, ele respondeu: “pelo jeito até os lobisomens caroneiros não toleraram tanta arrogância e lhe deram uma tunda que o fez perder o caminho de casa.”

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