Como intelectuais viam Tanabi em 1925

O jornalista Abílio Abrunhosa Cavalheiro e o advogado e o Antonio Tavares de Almeida deixaram registros precisos de como era o dia a dia da região há 100 anos

Tanabi e Monte Aprazível foram os dois mais importantes municípios da região de Rio Preto até os anos 1940, graças a seus vastos territórios e população. Em 1925, ano da criação do município de Tanabi, a população da sede era de 2 mil pessoas, outras mil moravam nos distritos e vilas, e 30 mil se espalhavam por fazendas cercadas pelas divisas de Mirassol, rios Rio Preto, Turvo, Grande, Paraná, São José dos Dourados e Monte Aprazível.  Era um espaço enorme dentro de uma “Bélgica” que compunha a região de Rio Preto.

Dá para se ter uma ideia de como era o cotidiano de Tanabi, graças ao minucioso trabalho do jornalista Abílio Abrunhosa Cavalheiro, autor do Álbum da Comarca de Rio Preto, um calhamaço de 1.153 páginas em tamanho A4, 32 delas dedicada somente a Tanabi. Outro livro fantástico é Oeste Paulista – A experiência etnográfica e cultural, do ex-prefeito de Monte Aprazível, brilhante e insuperável intelectual que a região já teve.

Cavalheiro cuidou de mapear os aspectos factuais da geografia, da economia, da sociedade e da etnia, cabendo a Tavares de Almeida interpretá-los à luz da sociologia, quando essa ciência contava, no Brasil, com menos de dez intelectuais versado nela e o próprio Tavares apenas um advogado curioso daquela ciência nova.

Para Cavalheiro, o primeiro habitante da região de Tanabi, José Alves Ferreira, era mineiro chegado por volta de 1825. Para Tavares de Almeida, todos os habitantes da vasta região eram mineiros, aos quais chama de “bandeirantes tornados”. Tavares discordaria do tempo, que teria ocorrido mais tarde, após 1840, devido às perseguições políticas das revoltas mineiras de 1842, a escassez de terras em Minas e por um lugar sem polícia e padres, pois muitos desses bandeirantes que retornavam tinhas contas com a justiça ou com a Igreja  por uniões adúlteras.

Tido como fundador de Tanabi, em 1882, segundo Carvalhosa, o índio mestiço mineiro, Joaquim Chico, teria chegado por volta de 1857, segundo Carvalhosa, mesmo período em que João Bernardino de Seixas, chegara a Rio Preto. Porém foi o fazendeiro José Teodoro Ferreira Lemos o doador da área de 75 alqueires para Nossa Senhora da Conceição. Essa doação gerou polêmica por mais de cem anos, já que os proprietários dos imóveis ficaram obrigados a pagar para a Igreja Católica o foro e laudêmio, impostos assemelhados aos  profanos IPTU e Intervivo cobrados pelas prefeituras dos imóveis hoje

Tanabi em 1925

A Vila de Tanabi se torna município autônomo em 1925, mesmo ano de Monte Aprazível que, dois anos depois, seria elevada à Comarca, incorporando Tanabi. O fato explica a ausência de advogados na relação dos profissionais liberais residentes em Tanabi contida no livro de Cavalheiro, escrito entre 1927 e 29.

Podia não haver advogados em cidades não comarcas, mas os profissionais eram conhecidíssimos e numerosos em toda a região e nela fizeram grandes fortunas, de maneira honesta ou como rapinagem.

A partir da década de 10, com a chegada do café, as terras dos antigos “bandeirantes tornados”, onde se praticava a agricultura de subsistência, atraíram a cobiça capitalista e a região se tornou o paraíso da grilagem de terra, onde os advogados prosperaram.

Amigo de Tavares, que o cita no livro, o farmacêutico e  poeta tanabiense João de Melo Macedo é demolidor ao se referir aos bacharéis: “… a ambição ardente do jovem profissional que abandonou todos os princípios da ética na plataforma da última estação ferroviária.”   Tavares, pernambucano, ele próprio atraído para a região pelas oportunidades, tem dos colegas visão mais pendular: “acercou-se do chefe político ou rodeou-se de paqueiros. Fez-se grileiro ou seu comparsa. Tendo a servi-lo inteligência, tomou de assalto as posições. Criou partidos de oposição e fundou clubes e jornais. Houve fortunas rápidas. A valorização da terra dava para tudo.”

Tavares de Almeida não fez fortuna, mas fez carreira política. Prefeito em Monte, presidente do Automóvel Clube de Rio Preto, candidatou-se a deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, em 1946, mudando-se em seguida para São Paulo.

Se dentre os tipos regionais de então, Tavares divide os advogados em bons e maus, ele classifica os padres como unanimidades nocivas e idolatra médicos. Em que pese  admiração que manifesta aos sacerdotes “heróicos” do Brasil Colônia e Império que “tornaram a nossa paisagem humana brasileira e católica”, ele classifica clérigos do Oeste paulista de estrangeiros ignorantes, “de poucas letras e muita ambição, que fizeram rápidas fortunas, tornaram-se fazendeiros ou agiotas de juros escorchantes.” Tavares os acusa ainda de não terem entendido a religiosidade ruidosa do povo nas procissões, a fogueira de São João, as novenas com folguedos “e policiaram a alegria religiosa do povo, trocando-a pela quermesse, festa de quem pode gastar.”  Para Tavares, o Oeste Paulista de então (e atual, assinalo) “não conheceu missionário.”

Em 1925, clinicava na sede de Tanabi os médicos José Barbosa Lima, Francisco Xavier de A. Junior e Paulo.  Pompilho de Abreu. Os “doutores”, segundo Tavares, deram a mais valiosa contribuição ao povo do Oeste Paulista, como médicos e educadores. “Dos homens cultos, foi o médico que mais penetrou na vida do povo. Além do médico dos males do corpo, o é das almas, substituiu o cura de aldeia que o sertão não teve no seu vigário burocrático e alheio aos sofrimentos materiais dos homens.”

Economia

Na formação econômica da região destaca-se a importância do imigrante europeu, com ênfase para italianos e espanhóis. Mas, segundo Tavares, foi o árabe o grande desbravador e primeiro a chegar, que preparou o terreno comercial para o estabelecimento da mão de obra europeia. O árabe veio para o sertão, mas não foi para a roça, a não ser como mascate, se estabelecendo em Rio Preto e nas demais vilas com comércio. Eram originários da Síria, a maioria, e do Líbano,  a região do mundo em que surgiu a atividade comercial há milênios. A vinda do imigrante italiano e espanhol não se deu diretamente da Europa, pelo menos antes de 1930. Vieram remanejados das regiões produtoras tradicionais de café, já com o domínio das técnicas de cultivo e colheita, familiarizados com a língua e cultura nacionais e os filhos já brasileiros.

A partir da década de 20, unem se aos italianos e espanhóis, os japoneses que não se adaptaram ao café, mas se deram muito bem com o algodão e que com a recém suirgida relação de trabalho, o arrendamento de terras.

O café e algodão moviam a economia em 1925, com participação significativa de arroz, milho e cana. O aproveitamento de pastagens era muito baixo, com supremacia da criação de suíno pela rapidez de se transformar em carne e da importância fundamental de sua banha como óleo para cozimento, fritura, fabrico de pães, e seu valor protéico essencial ao alto consumo calórico do trabalho pesado.

Produzia-se também muito fumo para uma população em que o tabagismo era disseminado entre homens, mulheres e crianças. Se plantava muito mais cana, da qual se fabricava o açúcar, na forma da rapadura, e a pinga. Muita pinga. A destilação era praticamente a única atividade industrial, eram cinco engenhos dentro da cidade e outros cinquenta espalhados pelas fazenda. Em cada dez propriedades, uma fabricava cachaça, segundo Cavalheiro.

Hoje, com 1/3 da área que possuía, Tanabi tem mais de mil propriedades. Em 1925, elas eram apenas 500. Para o café, contados aos milhões de árvores, era preciso muita área e capital. O valor do alqueire de terra próximo à sede era de 3 contos de réis, ou 3 milhões de réis. Não tem como atualizar esse valor de forma precisa, mas para se construir uma casa de colono na propriedade, gastava-se 350$000, cerca de 10% do valor do alqueire. Terras distante da sede e documentada valiam 300$000. Terra sem documento eram “compradas” à bala e com a astúcia de advogados especializados em grilar papel.

Fazer grilagem era produzir documento falsos de posse da época do Império e colocá-lo em uma gaveta com grilos. As secreções do inseto deixam o papel com aparência e cheiro de centenário.

A cidade de Tanabi, contava, em 1925, com onze ruas, 190 prédios, 10 casas comerciais diversas, dois hotéis, uma pensão, fábrica de telhas e tijolos, bomba de gasolina, quatro alfaiatarias, três farmácias, uma relojoaria, duas selarias, dois açougues, cartório civil, coletoria (recebimento de impostos estaduais) cadeia, câmara (a prefeitura não tinha existência física e o prefeito era vereador) e a sede companhia de eletricidade, gerada na própria cidade a óleo diesel. Basicamente, isso era Tanabi, quando o município foi criado.

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