A Polícia perdeu a guerra para o tráfico, mas continua investindo milhões na repressão

Para delegados “a polícia não dá mais conta” e sociedade precisa discutir outros modelos de enfrentamento

Policiais tanto da ativa como aposentados admitem que a guerra ao tráfico foi perdida pela polícia, a ponto de não se combater mais o consumo, que continua sendo crime, mas não é mais punido com prisão, conforme a nova legislação. “A polícia tem ignorado o consumo porque não dá conta. Perdeu por completo esse combate devido ao elevado número de usuários e pouco contingente policial, que acaba deixando de lado o consumo para combater crimes de maior potencial”, avalia o delegado de polícia aposentado, Donaldo Luiz Paiola.

Um delegado de polícia da ativa, que preferiu não se identificar, diz que a guerra ao tráfico de entorpecentes está perdida. A sociedade, segundo ele, “precisa discutir outros modelos de enfrentamento, afinal, as drogas estão à disposição em qualquer esquina, somente não as usa quem não as quer. Onde existe demanda, inevitavelmente haverá oferta, é uma regra de mercado”.

Mesmo em uma guerra perdida, o Estado continua investimento  somas gigantescas de recursos na repressão e discussões  alternativas, como a descriminalização são rechaçadas. A descriminalização da maconha em vários  países europeus, estados norte americanos e no Uruguai têm, ainda segundo o delegado, trazido resultados positivos em relação à diminuição da violência. “Em algumas cidades da Alemanha o estado controla a distribuição de drogas pesadas aos usuários, método que tem sido mais eficaz que a repressão criminal. A repressão, no atual modelo, serve à lavagem de dinheiro, violência urbana, assassinatos, corrupção, financiamento eleitoral, superlotação carcerária e articulação de um estado paralelo. O objetivo do modelo repressivo é a saúde pública, mas parece que o efeito colateral é muito pior. Não sou especialista e não tenho opinião formada, mas um debate amplo e esclarecedor se faz necessário.

Paiola, que trabalhou 35 anos como policial dos quais 12 como delegado, diz que pela experiência que teve, atualmente, a guerra está perdida. “Antigamente eram pouquíssimas pessoas envolvidas com o tráfico. A polícia tinha conhecimento daqueles que realmente traficavam e também naquela época havia distinção entre traficante e usuário. Naquele tempo, poucas pessoas faziam uso do entorpecente, não esse número assustador que é hoje. Hoje, ficou mais difícil trabalhar porque os usuários estão traficando também para manter a dependência, o que dificulta o trabalho da polícia, que não se estruturou de forma a acompanhar o crescimento do tráfico”.

Os presos por tráfico são a maioria dos condenados e detidos que aguardam julgamento nas cadeias e dentre essa maioria, a quase totalidade são de homens e mulheres pobres e negros. A Voz quis saber dos entrevistados porque a polícia tem dificuldade em prender os financiadores e detentores do capital do tráfico. O delegado que permanece na ativa diz que existe uma “narcocracia” em cada país da América Latina, continente produtor onde circula bilhões de dólares em maconha e derivados da cocaína.

Os Estados Unidos, segundo ele, lideram o modelo de combate às drogas que inspiram várias legislações, “incluindo a nossa, mas este líder não se avexa ao apoiar ditadores ligados ao narcotráfico, e a hipocrisia do líder aumenta ao sugerir bases militares em solo sul-americano para combater as drogas. Como se percebe, este comércio de bilhões serve a várias narrativas falsas, por exemplo, a intervenção dos Estados Unidos na América Latina por interesses geopolíticos e econômicos, o controle social da população mais pobre por meio de prisões, mandados coletivos de busca em bairros miseráveis, violência policial e histeria midiática para aumentar as vendas de materiais bélicos e de inteligência, outro mercado que movimenta bilhões. Em relação à segunda parte da pergunta, podemos ilustrar o famoso caso do helicóptero do senador mineiro Zezé Perrela transportando meia tonelada de cocaína pura, um exemplo da dificuldade de pegar os grandes. Este caso foi ignorado pela mídia e voltou recentemente durante a interceptação telefônica entre o senador Perrela e o senador Aécio Neves, em que o primeiro confessa ser traficante ao segundo. Inegável que temos a nossa “narcocracia”. Enquanto isso, o Brasil tem seguramente mais de 20% da população carcerária formada por traficantes “pé de chinelos” de maconha, droga já descriminalizada em vários países”.

O usuário, de acordo com o delegado, comete crime, “está previsto no artigo 28 da Lei de Drogas, mas a pena é alternativa e à polícia cabe cumprir a lei e a lei não distingue o pequeno, médio ou grande traficante. A lei é dura e o cumprimento de pena, idem. Portanto, o traficante pequeno tem tratamento similar ao grande, mas o pequeno fica muito mais exposto. O dono do helicóptero e quem lava o dinheiro dificilmente são vistos”, menciona.

Paiola diz que a polícia sempre busca prender os grandes chefes, mas, segundo ele, existe uma barreira. “Sempre a frente de um grande traficante tem várias pessoas que comercializam a droga para o comando do tráfico. Isso dificulta a prisão dos chefes, porque eles não praticam a comercialização direta para os usuários. O grande chefe abastece os pequenos traficantes, que revendem pequenas quantidades de drogas com frequência, o que os torna mais expostos e os torna presa fácil”, argumenta.

É comum ouvirmos que a maconha é a porta de entrada para as drogas, mas pouco se fala do consumo de álcool por adolescentes consomem cada vez mais cedo. Paiola diz concordar que a maconha é a porta de entrada para o uso de drogas mais pesadas no futuro, “mas não podemos ignorar que o consumo de álcool por adolescentes também propicie o uso de entorpecentes como cocaína, crack, LSD e vários outros que estão hoje no mercado”.

Para o delegado da ativa são teses com alto grau de ignorância. “As pessoas acham ilógicos os códigos fundamentalistas do islã da forma como são apresentados pela mídia ocidental, mas não percebem que são tão fundamentalistas quanto. Por meio das redes sociais, é comum ver gente postando e dando likes para cenas de mortes, torturas, ou textos maldizendo os direitos humanos, pedindo penas cruéis e degradantes. Neste contexto, aparecem diversas teorias igualmente baseadas na ignorância e no preconceito”.

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