João Francisco Neto: O encontro marcado

Há uma antiga fábula árabe que relata a seguinte história: lá pelos lados da Mesopotâmia (hoje, o Iraque), havia um rico mercador, que, como de costume, logo pela manhã, ordenava que um de seus servos fosse às compras no mercado local. Naquela época, os mercados árabes fervilhavam de tanta gente. Em meio à multidão, o servo percebeu que havia sido bruscamente empurrado. Ao se virar, deparou-se com uma mulher, de aparência aterrorizante, que o mirava fixamente e lhe fazia sinais ameaçadores. Seria a Morte? O homem tremia só de pensar nessa possibilidade.

Trêmulo e assustado, o servo abandonou o mercado e imediatamente retornou para a casa em que trabalhava. Apavorado, pediu ao senhor que lhe emprestasse o melhor cavalo disponível, pois pressentia que aquela estranha mulher era mesmo a Morte, que vinha lhe buscar. Disse ao patrão que fugiria para a região de Samarra, que ficava bem depois do deserto, onde, certamente, estaria seguro, e não seria alcançado pela Morte.

Com aquele cavalo veloz, chegaria lá ainda na noite do mesmo dia. Mais tarde, o mercador resolveu ir ao mercado e lá, de fato, deparou-se com a figura da Morte. Perguntou-lhe, então, por que motivo teria ameaçado o seu empregado. A Morte se desculpou e, muito serena, disse que não o havia ameaçado; apenas tinha feito um gesto de surpresa, diante do espanto em vê-lo em ainda Bagdad, pois naquela mesma noite tinha um encontro marcado com ele na distante cidade de Samarra…

A questão central da história é a ideia de que a morte é uma realidade inevitável, da qual ninguém conseguirá fugir. Algumas vezes as pessoas, querendo escapar da morte, na verdade, correm ao seu encontro, como é o caso do empregado da história acima.

Além das questões de fundo meramente filosófico, essa história tem sido utilizada para ilustrar as consequências desastrosas resultantes da industrialização desenfreada. O mundo inteiro assiste ao desmatamento descontrolado, ao aumento do aquecimento global e às diversas formas de agressão à natureza, tudo em nome do progresso e da melhoria das condições de vida da humanidade.

Ao mesmo tempo, vemos também o aumento do número de pessoas pobres e excluídas de todas as formas de conforto proporcionado pelo avanço material, e para as quais não se vislumbra nenhuma possibilidade de inclusão. Aí estão os milhares de refugiados sírios e africanos, que vagam pelo mundo à procura de um lugar para sobreviver.

Como se vê, o progresso material desenfreado nem sempre favorece a todos. Por outro lado, já vimos que boa parte desse progresso depende de processos industriais que impactam e prejudicam fortemente a natureza, de forma tão significativa que, muitas vezes, não há retorno, como nas áreas desertificadas e outras completamente degradadas. Muitos imaginam que, com o tempo, a própria ciência apresentará a solução para todos esses males. É uma idéia equivocada, já que nem sempre a ciência tem a resposta ou o remédio para tudo.

É óbvio que não se trata aqui de parar o progresso e tampouco de voltar ao tempo das carruagens; mas, todos temos de convir que alguma coisa haverá de ser feita. Nessa corrida descontrolada para o progresso e o desenvolvimento, poderemos, sem perceber, ir a um fatídico encontro em Samarra.

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