Walter Spolon: Andanças…

“Vim, tanta areia andei

Da lua cheia eu sei

Uma saudade imensa…”

Andança

Beth Carvalho

Faz tempo. Muito…

Pare o relógio, esqueça o presente e volte ao passado. Pense só nas coisas boas.

Imagine-se ainda moleque (ou seria criança?).

Pela manhã, com um embornal já preparado no dia anterior, com estilingue, bolotas de saibro feitas anteriormente com argila do famoso Buracão, claro, reuníamos amigos e lá íamos nós para as andanças. A primeira parada era no próprio Buracão. Lá nos reuníamos com outros amigos e aí começava a lida do dia, que seria longo. Uma pequena “guerra de mamonas”, ainda indefesas e, não assassinas. Dali, partíamos para a Malvina. Mas, até lá, algumas paradas obrigatórias, nos sítios do Sr. Marco Fim, do Sr. Nico da Malvina, para caçar rolinhas e fogo-apagou. Dali para o sítio do tio Domingos Spolon, para saborear as mangas Bourbon e outras frutas. Finalmente o destino: Malvina. Água Limpa é o rio e a água também, com temperatura agradável. Ali eram improvisados escorregadores, nos barrancos e podíamos, também, pular lá de cima da ponte, sem qualquer perigo de atingir o fundo do poção. Outro local desse rio, bastante frequentado, era o poção dos Dantas, mais acima da ponte.  Este foi o programa de muitos e muitos aprazivelenses, durante anos.

Dois adendos:

– Durante muito tempo, dois amigos inseparáveis, Dr. Gil, que residiu durante muitos anos onde hoje é a casa do Mascaro, e o Sr. Antonio Valério de Oliveira, avô do Mainha, assiduamente iam até a Malvina e faziam dois exercícios: caminhada e natação. Todas as madrugadas, iam os dois, toalha às costas, para um banho nas águas da Malvina. Só falhavam se chovesse muito, ou se fizesse muito frio. O Sr. Valério, onde estivesse, sempre portava um guarda-chuva e chapéu. Seus companheiros inseparáveis e constantes em todos os lugares e em todas as ocasiões. Ele só não os usava, quando desfrutando das limpas águas do Água Limpa. Foi, também, funcionário exemplar da Prefeitura: Lançador, na época dos Prefeitos Lavínio, Bechelli, Geraldo e Wilson. Tive o prazer de, por algum tempo, ser seu colega de trabalho.

– O Padre Altamiro, durante muitos anos, acompanhado de vários coroinhas, também iam até a Malvina, pela madrugada, nos dias quentes.

Voltando ao assunto:

À tardezinha, quando o sol ameaçava se esconder, juntávamos as tralhas e pegávamos o caminho de volta prá casa. Durante esse trajeto, já discutíamos o programa para o dia seguinte.

Cansados, ao chegar, tudo que queríamos era um banho, um bom prato de arroz com feijão, seguido de uma cama quentinha. Era o descanso do guerreiro, não o do Flamengo.

Ao raiar do dia seguinte, começavam novamente os preparativos. Hoje a programação será o futebol, o “racha” que acontecia vários dias da semana, no campinho lá do buracão, onde hoje temos a Escola Infantil da Prefeitura.

Nós o chamávamos de campinho de futebol, mas, na verdade, era um terreno de saibro, inclinado, com várias minas d’água. Isso em nada atrapalhava a vontade da meninada de jogar futebol, ainda não campeão do mundo. No máximo, Vice, ao sermos derrotados em pleno Maracanã, pelos Uruguaios. Bola de capotão, exatamente como na figura abaixo (o dono dela sempre tinha lugar garantido no time) que, quando necessário era consertada pelo amigo Angelo Lorenço. As traves, de bambu, quase sempre arqueadas, por causa da chuva e do sol. Nada, porém, desanimava os bravos jogadores.

Outro dia da semana, o destino era a Fazenda do Sr. Felício Alves Ferreira, lá no alto da represa. Caçar passarinhos, chupar manga, desfrutar das goiabas brancas ou vermelhas. Huummm…

Essa época era, também, dos bons tempos do Cine São João, o cinema do Dida e, depois o Cine Vera Cruz, do Sr. Otávio Perezi. Nas tardes de domingo, a meninada não perdia os filmes das matinées, quando assistíamos aos famosos filmes Far-West, com os mocinhos Roy Rogers e seu cavalo Trigger, Rocky Lane, Tom Mix e tantos outros, além do Tarzan e sua inseparável amiga Chita. Os seriados, que tinham continuidade no domingo seguinte, sempre deixavam no ar o que poderia acontecer de mal à mocinha ou ao mocinho, heróis dos filmes. A torcida pela luta do bem contra o mal era grande.

Tempos em que não tínhamos a modernidade de hoje. Nada de celular. As conversas eram sempre tetê-a-tête, olhos nos olhos. Já hoje…

Que seria do mundo, hoje, se tivéssemos que ficar 24 horas sem celular e internet? Você, por acaso sobreviveria a essa eternidade…?

Acho que não!

E saber que as crianças daquela época usavam o telefone de latinhas de massa de tomate, amarradas às pontas de um barbante! E, com aquela tecnologia de ponta, de barbante, claro, conseguiam se comunicar…

Amigos! Muitos! E quanta saudade de todos eles e de nossas andanças!…”

Antigamente era muito, muito melhor do que hoje!

“Amigo é coisa para se guardar

Debaixo de sete chaves

Dentro do coração

Assim falava a canção que na América ouvi

Mas quem cantava chorou

Ao ver o seu amigo partir…”  Canção da América – Milton Nascimento.

Ah! O amigo Carlinhos Bignotti tenta até hoje, manter viva uma dessas lembranças.  Seu Hobby é fazer estilingues. Que paciência!

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