Mãos Mágicas: Ênio Agrelli usa a arte em facas como terapia para o Mal de Parkinson

Sofro de Mal de Parkinson. Aos 58 anos, tenho uma vida muito ativa, como marido,  pai de três filhos, mantenho minha atividade como empresário normalmente. Há 5 anos me interessei pela cutelaria como forma de auxiliar no tratamento da doença, já que a arte de fazer facas requer habilidade manual, com movimentos finos e de precisão. Faço e desenvolvo também outras atividades, já que a doença é minimizada por exercícios físicos como caminhadas, ciclismo, exercícios em academia e fonoterapia, mas a cutelaria além de desenvolver a coordenação motora se tornou para mim um hobby.

Eu gosto de mexer com maquinários e ferramentas e vi nas facas uma grande chance de colocar em prática todo esse meu gosto por esses objetos. Fiz um curso em São Paulo sobre noções básicas de cutelaria. Foi um curso de uma semana e a partir de então comecei a fabricar as facas, mas foi errando que acabei aprendendo. Até hoje ainda erro algumas, já fiz algumas dezenas de facas que não deram certo nesses cinco anos, quando comecei a fabricá-las, mas acertei também em algumas que são muito bonitas e que guardo em uma coleção que estou fazendo, embora tenha vendido algumas.

Atualmente eu uso o aço inox N 690, importado de uma empresa alemã chamada Bohler, e o COM 154, importado de uma empresa americana. Ambos têm elevado teor de cromo, indicado para ferramentas onde são desejados endurecimento de alto nível, proporcionando uma grande retenção de fio, assim como em facas e instrumentos cirúrgicos. Mas uso também aço carbono, que é o 5160, excelente material para facas de muito corte e durabilidade, sendo que esse tem o agravante da oxidação. Além do aço usado na lâmina, uso também vários tipos de madeira para o cabo, como o angico, o jacarandá, a candeia, o marfim, o pau Brasil e o louro preto e vários tipos de acabamento, tais como parafusos.

Como a madeira é usada em pequena quantidade eu possuo um estoque há algum tempo. Algumas foram compradas, outras ganhei de amigos. O aço importo da Alemanha e dos Estados Unidos, mas compro também o aço carbono no Brasil. O aço inox é caro, o alemão e o americano são comprados por peças. Eu compro peças nas medidas 50 milímetros de largura, 4,08 milímetros de espessura e 700 milímetros de cumprimento. Uma peça alemã e americana com essas medidas custa R$ 400,00, já uma peça com as mesmas medidas em aço carbono nacional custa R$ 10,00. Peças com essas medidas são suficientes para a fabricação de 3 facas, duas grandes e uma pequena.

A faca é composta de cabo, lâmina, guarda e ricaço, entre outras coisas mais e em cada parte dessa faca pode ser incrementada sofisticações que variam de acordo com a criatividade do cuteleiro e isso faz a faca ser diferenciada. Existem várias formas de trabalhar o aço, diversos métodos e estilos. Na fabricação de facas pode-se forjar ou usinar. Eu trabalho com o método de usinar, que na verdade é de desbaste. Inicialmente faço um desenho da faca que pretendo fabricar em tamanho real. Nesse desenho a gente já imagina o que será feito na faca, depois disso o desenho é passado para a chapa de aço e depois o aço é recortado e feito todos os trabalhos dos detalhes que a faca terá.

O aço é recortado com serra de fita e o acabamento do corte da chapa é feito com limas e lixadeiras. Eu conto também com o auxílio de algumas máquinas em minha oficina. Depois é feito o chanfro do gume e em seguida as aplicações da guarda, colocação da madeira do cabo, é feita a têmpera, que nada mais é do que a elevação da temperatura na especificação do aço e resfriamento em óleo, havendo um choque térmico que enrijece o aço e por último o polimento.

Não tenho compromisso de tempo para fazer uma faca, então chego a levar até um mês para fabricar uma. Minha preocupação é com a riqueza de detalhes, porque quanto maiores os detalhes, maior o valor artístico da faca. Existem vários tipos de facas, vários tipos de cabo e tudo vai da inspiração do momento. As vezes pego um estilo de lâmina e coloco um cabo de outro estilo. Por exemplo, pego um estilo de lâmina de faca de caça e coloco um cabo de faca militar. A criação é infinita, existem muitas opções de facas e canivetes, que também fabrico. Entre os dois já fabriquei mais de 200 peças, contando os projetos que não deram certo e os bem sucedidos. Todo dia eu mexo um pouquinho, dedico cerca de 3 a 4 horas diárias para a fabricação das facas.

A cutelaria é uma arte que exige paciência, atenção e concentração, porque se cometer um erro ela fica feia, exige adaptação do desenho original e perde a ideia inicial do projeto. Já fui a muitas feiras de cutelaria em São Paulo, mas nunca me atrevi em expor, porque continuo aprendendo a fazer facas todos os dias.

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