Os produtores de leite estão sendo sufocados pela política absurda de preço das indústrias

Preço do produto é tão baixo que pecuaristas diminuem a produção para evitar prejuízo ou deixando a atividade

No período em que se encontra a entressafra do leite, o preço para o produtor habitualmente costuma aumentar, mas o consumo abaixo do esperado em razão da recessão econômica pressionou o preço para baixo, segundo o Laticínio Tirolez. Mas, os produtores não entendem essa lógica do mercado e estão reclamando. Nem mesmo a queda no preço do milho, que resultou em diminuição do custo da ração, está conseguindo fazer com que os pecuaristas cubram os custos de produção.

O pecuarista Carlos Alberto de Oliveira, que produz em média 3 mil litros de leite por dia, diz que em plena entressafra houve uma queda de 30% no valor do litro pago ao produtor. “Estão nos pagando 30% menos do que o valor pago nessa mesma época do ano passado – reclama – sob a alegação de que não está vendendo o produto industrializado. Mas o curioso é que eles baixam o preço pago ao produtor, mas o preço de seus produtos continua no mesmo patamar. Se não está vendendo, baixem os preços que o consumo aumenta. Mas o produto deles eles não baixam”.

“Tá difícil – prossegue – eu acho que é jogada dos laticínios esse negócio de baixar o preço pago ao fornecedor. Eles estão querendo recuperar a diferença que pagaram melhor ao produtor  no ano passado. O grande problema do Brasil é que o produtor não põe preço no seu produto. É a indústria quem dita o preço e nesse país que não tem governo, o produtor é sempre quem paga a conta. Dá vontade de mandar os laticínios e o governo produzirem leite”, revolta-se.

Carlos diz que o mercado “está horrível. Quando a gente pensa que vai respirar vem novo golpe. Retiro de leite é um investimento muito alto, é um patrimônio absurdo e não dá retorno. Se a gente tiver esse patrimônio aplicado na poupança, cujo rendimento é calculado com a menor taxa de juro do mercado, dá mais rendimento que o leite. A gente tem uma estrutura dessa e não dá rentabilidade”, queixa-se.

Ele diz que a queda no preço do milho diminuiu o preço da ração, mas “nós não temos só o custo com a ração, temos gastos com energia, pessoal, impostos e isso não diminui, só aumenta. O laticínio está pagando R$ 1,50 o litro de leite, deveria estar pagando R$ 1,80 para sobrar alguma coisa para o produtor. Do jeito que está a gente só ficam pondo dinheiro e não tem lucro algum, praticamente empata, apesar de todo trabalhão que a atividade dá”. Devido a má remuneração, Carlos diminuiu a produção..

Felix Alle é outro produtor de leite que está revoltado com os preços praticados pelos laticínios. “Para nós ficou muito ruim porque em plena seca, que é a entressafra do leite, o preço está baixando. Nossa sorte é que baixou um pouco o preço da soja e do milho, então está dando para tocar, mas lucro que é bom está longe”, diz.

Felix também diminuiu sua produção. Ele conta que “há dois anos eu tirava 1 mil litros por dia, agora no mesmo sítio eu estou tirando 600 litros, porque tive que vender vacas para tocar a atividade e não consegui repor o gado. Além disso, fui forçado a arrendar 20 alqueires para plantio de cana porque caso contrário não daria para sobreviver. Só a renda do leite não cobre as despesas”.

“O laticínio está baixando o preço e batendo em cima da qualidade do leite – diz – mas esquece que de bolso vazio fica difícil atingir a qualidade que eles desejam”. Ele conta que no ano passado, nessa mesma época, “teve dois meses que nós recebemos R$ 1,80 o litro, agora estão nos pagando R$ 1,30, valor que empata com o custo de produção. A gente fecha o mês de bolso vazio. Nós estamos sem rumo. A coisa tá feia”, queixa-se.

E ratifica, “do jeito que está indo nós vamos quebrar. Nós não temos preço fixo para trabalhar e nós entregamos o produto e só sabemos quanto iremos receber 35 dias depois da entrega. Desse jeito estamos indo para trás, não tem condições. Tinha que ter uma tabela. A gente começar o mês sabendo quanto vai receber e não trabalhar no escuro como tem sido”.

O mercado

Amarildo Pirani, responsável pela política leiteira do Laticínio Tirolez em Monte Aprazível, diz que atualmente o mercado não está comprador. “Em função da crise muitos perderam seus empregos e houve redução no consumo”.

Indagado se os produtores estão recebendo mais ou menos em relação ao ano passado, ele diz que “no primeiro trimestre os preços ficaram por volta de 16% acima que 2016, no segundo já ficaram 0,5% abaixo. Comparando o primeiro semestre os preços ao produtor ainda ficaram melhores que o ano anterior. A preocupação é o que vai acontecer no segundo semestre. As previsões é que fique abaixo do ano passado”.

Esse comportamento do mercado, de acordo com Amarildo, é em função da oferta e procura. “Atualmente está ocorrendo uma sobra de leite em função de um pequeno aumento na produção e também pela diminuição do consumo”, diz. Mas ainda assim a produção do Tirolez está, segundo ele, “muito parecida com a do ano anterior”.

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