Migrantes nordestinos garantem aumento da população de cidades da região

A presença do migrante na região deixou de ser “flutuante” durante o corte de cana, somente em Monte, são 4 mil e querem status de cidadão

A paisagem humana das cidades da região mudou bastante. O fenótipo caucasiano, branco, hegemônico por um século, nos últimos, anos ganhou a companhia do migrante nordestino, que traz na pele a marca de cindo séculos de miscigenação entre as etnias caucasianas europeias, negras e ameríndias. E a população das cidades ganhou diversidade, colorido, se aproximando mais do perfil étnico nacional de uma população diversamente rica do branco ao negro, passando por uma miríade de tons acobreados.

E não foram só as cidades que ganharam, muito mais,  ganharam os municípios. Sem a massiva fixação dos brasileiros do Norte; Nordeste, na região, Monte Aprazível não teria avançado na faixa do FPM que aumenta em alguns milhões os valores repassados pelo governo federal e Tanabi, sem os migrantes, poderia ter perdido recursos.

Nos últimos anos, a população de Monte Aprazível cresceu em 5 mil pessoas, enquanto Tanabi cresceu apenas em 1 mil. Para o Ministério do Planejamento, 24 mil habitantes determina a posição para o município mudar de faixa. Em 2010, Monte tinha menos de 20 mil e agora está acima de 24 mil; Tanabi que estava acima de 24 mil, hoje tem pouco mais de 25 mil. Estima-se que os dois municípios tenham em torno de quatro mil nordestinos, ficando evidente o êxodo de nativos, compensado pelo estabelecimento do migrante.

Se o fluxo de saída de nativos, especialmente devido ao fechamento de postos de trabalho, pelo mesmo motivo, a dificuldade de vagas lá, o processo de migração não para, independentemente da safra de cana, atividade que não contrata mais cortadores Segundo Edmilson Ramos da Silva, o Misso, um dos líderes da comunidade em, Monte Aprazível, ao mês, chegam à cidade a média de 20 famílias. Ao menos um recém chegado, semanalmente, procura a Junta Militar para se alistar, solicitar documento, ou regularizar a situação militar. Esse dado, por se tratar de homem, em idade limitada, ajuda a corroborar o número estimado por Misso das famílias que chegam à cidade em Monte Aprazível.

Misso garante que no sistema de saúde estão cadastrados 4.300 oriundas das regiões do Nordeste, Norte e Minas. O delegado do IBGE, Ênive Violin, diz não ter número já que o Censo não questiona origem dos recenseados, mas indica que desapareceu a antiga situação de alojamentos de homens, em clara estadia temporária e que não são recenseados, “o que observamos são moradias de famílias e temos observados famílias morando na zona rural trabalhando com seringueiras.”  Ênive não arrisca estimativa, mas diz que Monte Aprazível e Tanabi tem crescido bastante e pode ser indício de significativa migração. Caso os números de Misso estejam correto, os migrantes representam quase 20% da população de Monte, mas em municípios menores, como União Paulista e Nipoã, a proporção é, visivelmente, bem maior.

A presença deles não é vista apenas em seringais. Eles podem ser observados na construção civil, operando máquinas e caminhões, como ambulantes, em pequenos e médios comércios e elas como balconistas, cuidadoras, salões de cabeleireiras, como faxineiras e domésticas.

Migração

Misso é casado, três filhos, há 21 anos deixou sua cidade de origem, Barreiras, Pernambuco, para procurar melhores condições de vida em São Paulo. Ficou na capital nove anos e há 12 mudou-se para Monte Aprazível. Aqui se firmou como trabalhador, hoje independente, trouxe a família e se popularizou entre os conterrâneos.  O tempo na cidade o fez perceber a necessidade de dar atenção aos migrantes que chegam. “O Nordeste é muito bom para se viver, mas para emprego é fraco. A mão de obra lá é muito barata. Uma diária de trabalho lá gira em torno de R$ 25,00 a R$ 30,00 enquanto que aqui gira em torno de R$ 70,00 a R$ 80,00, por isso que eles correm para cá”, enfatiza.

O nordestino busca ajuda da prefeitura, sem nada conseguir, para montar uma casa de apoio aos conterrâneos para acolhê-los na chegada e orientá-los de forma que possam obter um emprego e adquirirem condições de conseguir “uma casinha para viver”. “O que nós precisamos é de apoio da prefeitura, porque eu tenho bom conhecimento e consigo arrumar algumas coisas para montar a casa e também consigo colocação para eles.”

De acordo com Misso, “a vida aqui é mil vezes melhor do que lá para remunerar o trabalhador. Além disso, a realidade de educação e saúde lá é zero, enquanto que aqui temos uma boa assistência nessas áreas”.

Na região de Monte Aprazível, segundo ele, os nordestinos têm as usinas para trabalhar e fora do campo o setor em que os homens mais se empregam é na construção civil e as mulheres como domésticas e cuidadoras de idosos.

Apesar das melhores condições de vida que têm na região, os nordestinos, segundo Misso, sofrem com a discriminação. “Nós só temos valor para votar nos candidatos e para trabalhar, no mais somos discriminados. A prefeitura tinha que dar lazer para esse povo, inclusive na represa, onde eles costumam se divertir, porque o lazer do nordestino aqui é a represa e os bailes de forró. Eu estou pelejando para conseguir um clube para fazer um baile de 15 em 15 dias, mas está uma luta, porque o nordestino gosta de forró e reggae”.

O também pernambucano Erivaldo José Teixeira, 35 anos, deixou Tamandaré, região litorânea de Pernambuco para jogar futebol no Mato Grosso. Lá mudou de profissão e partir para trabalhar como efetivo em usinas. Convidado por amigos mudou-se para Monte Aprazível e trabalha como motorista na usina Virgulino de Oliveira, em José Bonifácio.

Casado, pai de gêmeos, tratou logo de trazer a família para junto de si, sob a alegação de que com a família por perto se concentra melhor no trabalho, além da região primar por melhores condições de saúde que sua cidade de origem.

Assim como foi incentivado a vir para a região, também incentiva conterrâneos a se mudarem para cá. “Lá o trabalho é muito disputado, tem que ter mais estudo, mais conhecimento. Se o prefeito ganhar está empregado, se perder está desempregado”, conta.

Linha Azul, como Erivaldo é conhecido na comunidade, também menciona a discriminação sentida pelos nordestinos. “Tem gente que nos chamam de gringos. Eu tiro pela minha cidade no nordeste, lá vive do turismo e os gringos é que mantém a cidade. Nós também fazemos o comércio crescer aqui, não deviam nos discriminar. Eu não ligo, acho que o Brasil é grande o suficiente para todos, mas muitos ficam aborrecidos”, diz.

Roniperkinson dos Santos, 37 anos, é alagoano de Porto Calvo. É casado, pai de três filhos. Está na região desde 2015 e há sete meses mudou-se para Monte Aprazível. Trabalha atualmente na usina Moreno como motorista, “puxando cana à noite, porque sai um dinheirinho a mais”, conta. Ele trará em breve a família e tem como meta, trabalhar cerca de cinco anos para comprar um caminhão para, já que tem casa e carro. “Lá em casa estão todo empolgados para vir, aqui a escola, a saúde e a moradia é bem melhor do que lá”, encerra.

De faxineiro a dono de padaria

O cearense  José Nicésio Alves dos Santos e a mulher Palmira, mineira de governador Valadares, estão em Monte há um ano, estabelecidos no ramo de panificação, mesma ocupação do irmão que está na cidade há mais bem tempo. José deixou sua terra natal há 20 anos, 12 deles passados em São Paulo e sete em Rio Preto.

Ao chegar a São Paulo, com os irmãos, José se empregou como faxineiro em uma padaria de cidadão de nacionalidade portuguesa e repetiu uma história comum na primeira metade do século passado, quando proprietários portugueses de padarias e secos e molhados ofereciam sociedades a empregados. “Depois de um tempo, o patrão viu meu interesse pelo trabalho e pelos negócios da padaria, me tornei padeiro, confeiteiro, fui guardando um dinheirinho e o patrão me chamou para sócio”, lembra.

Três dos irmãos seguiram pelo mesmo caminho e hoje são proprietários de padaria, um deles, conhecidíssimo na cidade por Ceará.

Quando o irmão comprou a segunda padaria, José entrou no negócio como sócio e em poucas semanas comprou a parte do irmão. Ele diz gostar muito da cidade, como gostava do bairro rio-pretense em que tinha comércio, com forte presença de migrantes. “Um conterrâneo vai conhecendo o outro e aqui em Monte Aprazível tem muitos nordestinos e todos se conhecem.”

José acredita que cada vez mais os migrantes vão continuar vindo para a região. “A vida no Nordeste piorou muito nos últimos anos, tem pouco emprego, principalmente no sertão e quando tem a diária é pouca. Aqui os salários são muito melhores, tem saúde, tem escola”, diz. Mas não é só. “O nordestino não escolhe trabalho, aceita qualquer um, trabalho pesado que o paulista não pega porque tem mais estudo e não tem tanta necessidade e aperto que tem o nordestino”, constata José.

O cearense explica que a migração é um processo forçado pela necessidade. O migrante vem obrigado. “Se tem trabalho lá eles vão ficando, mas se o emprego continuar difícil lá, aqui  tem um irmão, um primo, um vizinho que faz o convite. Ele vem sozinho até arranjar uma colocação e logo vem a família.”

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