Frei Francisco não aceita que prefeitura transforme Praça da Matriz em estacionamento

A decisão do prefeito Nelson Montoro, em Monte Aprazível,  em liberar a Praça da Matriz para estacionamento,  interditando-a, na prática, como espaço de convivência humana, na contramão da tendência universal e civilizada, da ocupação das áreas públicas por gente, causou polêmica. Desde sempre, a Praça é do povo, como sentenciou Castro Alves, no século XIX.  A arquiteta Delcimar Teodózio concorda com o poeta baiano, modificando seus mais conhecidos versos, determinando a rua como lugar dos carros, esses condores metálicos do século XXI que infestam  as cidades. O mesmo pensa o Frei Francisco, pároco da Matriz, que inconformado com a invasão do espaço do povo por tradição,  da Igreja por posse, embora da prefeitura por concessão  que expira em 2025,  se dispôs a demonstrar que o átrio da Praça não é solução para a falta de vaga, mas o descaso da prefeitura no cuidar dela, é enorme problema urbanístico.

O frei Francisco Aparecido Rodrigues se diz totalmente contrário à instalação de um estacionamento na praça. Ele alega que um estacionamento no local tira totalmente o sentido da reforma, “que foi torná-la um ambiente agradável para o povo, tanto que a reforma foi feita com recursos do Turismo, o que supõe que o espaço é turístico, além do mais a praça já está circundada de vagas para estacionamento o que foi feito por ocasião da reforma”.

Ele alega que a praça da matriz existe em função da igreja, “que inclusive foi apontada em pesquisa popular como sendo uma das 7 maravilhas da cidade. Nós estamos resgatando a belíssima arquitetura da igreja que é um ponto turístico da cidade, mas como mantê-la turística cercadas de monstrengos automotivos”, enfatiza.

E prossegue: “a praça é um espaço reservado para as missas campais, concentrações de procissões, campanhas educativas e apresentações artísticas, como as realizadas pela própria prefeitura recentemente sobre combate a dengue e as apresentações de Natal da última terça-feira. A praça tem outras atribuições que não um depósito de veículos. É um local para as crianças brincarem, andarem de bicicleta, as pessoas circularem, os idosos se encontrarem”.

O frei aponta como uma das alternativas para a falta de vagas no centro da cidade a implementação de zona azul. “Não sei por que isso não é aventado porque é a solução adotada em todas as cidades? Se permitirmos carro na praça o pedestre perde seu lugar, o lugar onde pode estar, ficar e se locomover”.

A propósito, o frei elenca problemas na praça da matriz e diz que as demais praças de modo geral se encontram no mesmo nível. “Os bancos estão quebrados, a maioria das luzes queimadas, tem sujeira por toda a parte como sacos plásticos, copos e garrafas descartáveis e de vidro jogados no chão por falta de lixeiras, os banheiros estão em estado deplorável. Dá vergonha de indicar o banheiro para uso de quem quer que seja”.

“Além disso, falta assistência técnica especializada para o controle das árvores adultas, as podas das árvores são drásticas e sem acompanhamento técnico. O que se está fazendo com as árvores do município é crime ambiental, como foi feito com as árvores localizadas atrás da escola Capitão Porfírio de Alcântara Pimentel, na rodoviária e atrás da igreja da Vila Aparecida. As árvores estão sendo exterminadas. As nossas praças não têm segurança, tanto que a Praça da Matriz, além do estado de deterioração,  é usada à noite como ponto de uso de drogas. Acho que todos os prédio públicos deveriam ser monitorados através de câmeras”.

Comodato

Por ocasião da reforma da Praça da Matriz, há 12 anos, para que a prefeitura pudesse reformá-la com recursos do Turismo, ela foi cedida em comodato ao município por um período de 20 anos. Mas o frei diz que “há de se olhar toda a documentação, porque na lei fala em reforma e não em modificações e objeto de uso. Além do mais, o povo que tem que se beneficiar da praça e não apenas alguns, como no caso dos carros para uso exclusivo de poucos. A praça é um bem para a sociedade aprazivelense e para continuar sendo um bem, ela tem que ser bem cuidada, bem amada e bem preservada”.

A indignação do frei é ainda maior porque ele afirma que não foi consultado oficialmente pelo prefeito Nelson Montoro para abrir a praça a estacionamento de veículos e nem para a retirada da placa que indicava ser proibido estacionar.

Urbanista contesta uso de praça como estacionamento

A arquiteta e paisagista Delcimar Marques Teodózio diz que a praça é um local de encontro de todas as idades. “É um espaço de atividade cultural que pode ser promovida por qualquer um de seus habitantes. Essa atividade cultural pode ser religiosa, com as quermesses, com procissão, com missa campal, pode ser cultural com alguma festa cívica da cidade, pode ter um grande comício, porque em especial a Praça da Matriz de Monte tem um grande átrio que pode reunir as pessoas para alguma festividade. Ela também é um espaço de encontro, de bate papo, um espaço lúdico, onde as crianças podem correr e brincar, é um espaço do ócio, das pessoas sentarem lá e ficarem curtindo o movimento”.

Por essa razão, ela diz que fazer um estacionamento na praça está errado. “O carro fica na rua, o carro não tem direito nenhum de ficar sobre uma praça, a não ser quando tenha eventos religiosos, que todo mundo chega ao mesmo tempo, um casamento, por exemplo, e para aquelas pessoas que exigem uma atenção especial de acessibilidade, como idosos e cadeirantes”.

A arquiteta chama a atenção também para a “coisa” pública. “O direito à cidade não é um direito individual e sim coletivo. Então não é porque a praça é pública que se pode fazer nela o que se quer. Ninguém faz o que quer numa praça só porque ela é publica, senão as pessoas poderiam acampar nela, montar um barraco, colocar um comércio. Se eu sou pedestre eu tenho que respeitar o carro na rua, mas o dono do automóvel não pode me desrespeitar na calçada ou em cima da praça..

E como solução para a falta de vagas no centro comercial da cidade ela aponta a construção de estacionamento na frente ou lateral das lojas e cita como exemplo a Loja Longo que fez estacionamento para os clientes. Além disso, ela menciona estacionamentos privados como solução para o problema.

Ela diz ainda que “em se tratando de cidade pequena, as pessoas tem que andar. Não vejo problema de estacionar a cem, duzentos ou trezentos metros de distância da loja de interesse. Ao contrário do que os lojistas pensam que a pessoa tem que parar com o carro em frente da loja porque é assim que ela vai fazer a compra, não é isso, a pessoa se interessa pelo produto quando ela está andando a pé, porque é um caminhar lento, durante o qual ela consegue observar as vitrines, as mercadorias.

As cidades brasileiras estão na contramão do que está acontecendo nos demais países do mundo, onde não se permite mais que o carro ingresse no centro da cidade. É preciso mudar essa cultura do automóvel, de colocar o automóvel em cima das praças, das calçadas e deixar que os pedestres andem livremente em calçadas com muita qualidade.

Ela finaliza dizendo que “cidadão não é consumidor. Cidadão é cidadão e ele não deve ser tratado como consumidor. A praça é pública e ela é pra todo mundo, ela não é um espaço de consumo, é um espaço de uso, de diversão, é um espaço social na verdade e não um espaço de consumo. É importante ter isso em mente”.

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