João Francisco Neto: A invenção do Natal

O Natal é um tempo em que as pessoas aproveitam para se reunir com as famílias, muitas vezes distantes, e assim comemorar a vida, em meio a muita comilança e distribuição de presentes. É óbvio que, devido às diferenças socioeconômicas, nem todos podem se dar ao luxo de sair por aí comprando e presenteando o que bem entender. Mas, de qualquer forma, o Natal, continua sendo um tempo de confraternização da família.  Mas, nem sempre foi assim.

Consta que, para superar as antigas tradições pagãs dos romanos, a Igreja escolheu para o Natal uma data que até então era comemorada com festividades populares, famosas pelos excessos e pela libertinagem. Na era cristã, o Natal passou a ser uma festa religiosa modesta, se comparada com a Páscoa. E assim permaneceu durante os séculos.

A comemoração do Natal da forma como hoje a conhecemos iniciou-se na Inglaterra, a partir de meados do século 19. Tudo começou com o escritor inglês Charles Dickens, que, fascinado pelas tradições natalinas, publicou o mais célebre livro sobre esse tema: “Um Conto de Natal”, uma obra que foi incansavelmente adaptada para o cinema, teatro, rádio, musicais e tudo o mais que se possa imaginar.

Em 1843, Charles Dickens, que já era um escritor consagrado, passou uma temporada na cidade de Manchester, que vivia o auge da Revolução Industrial. Lá ele pôde se confrontar com a dura realidade de miséria e sofrimento a que eram submetidos milhões de trabalhadores, inclusive as crianças, que trabalhavam nas minas de carvão, o que provocava uma alta taxa de mortalidade infantil.

Sob o impacto da miséria de Manchester, Dickens resolveu, então, escrever um livro – na verdade, uma fábula – que narrava a crise existencial de um velho rico, avarento e solitário (Ebenezer Scrooge), que, às vésperas do Natal, se regenera e passa a ajudar os pobres. O drama desse personagem triste envolve sentimentos como amor e ódio; vingança e perdão; bondade e maldade, que, no fundo, compõem o drama de todos nós.

A intenção de Dickens ao publicar “Um Conto de Natal” era fazer uma dura crítica social a uma sociedade enriquecida, porém dominada pela ganância e pela incapacidade de perceber a miséria em que vivam milhões de famílias de trabalhadores.  A reforma moral do avarento Scrooge representava um sinal para a sociedade inglesa, até então insensível para com o sofrimento dos mais pobres. O livro de Dickens teve uma excelente receptividade na Inglaterra vitoriana; os seis mil exemplares da 1ª edição se esgotaram em menos de uma semana. Daí, a celebração familiar do Natal começou a ganhar força, como sinônimo de renovação dos valores familiares e do fortalecimento do espírito de solidariedade. Para ganhar o mundo, foi apenas uma questão de tempo, pois todos gostavam de imitar os costumes ingleses, até hoje tidos como chiques e elegantes.

Ali estava a criação (ou a “invenção”) de praticamente tudo aquilo que até hoje representa o chamado “espírito natalino”, como a tradicional árvore de Natal (na verdade, um pinheiro), com neve e decoração colorida, Papai Noel, os presentes, os cartões e as canções de Natal, e, mais tarde, as lâmpadas coloridas. Depois disso, o Natal virou uma festa de luz, exatamente como permanece até hoje.

A diferença é que, nos tempos atuais, muita gente foi capturada pela ilusão do consumo desenfreado e sem limites. São pessoas eternamente insatisfeitas, para quem o Natal continua sendo o mais triste dos dias alegres.

Categorias: Artigos