Walter Spolon: Da. Áurea, uma vida dedicada à música

Monte, há muitos e muitos anos, pode se considerar uma cidade feliz. Feliz, porque aqui tivemos e temos, ainda, grandes “homens”. Só para citar alguns: Padre José Nunes Dias, Lavínio Luchesi, Coronel Basileu Estrela, João Bustos Moreno, José de Andrade Junqueira, Padre Altamiro e muitos outros que participaram, direta ou indiretamente, da construção, desenvolvimento e progresso de nossa cidade.

A essa lista, evidentemente, poderíamos citar muitos outros nomes, claro. Algumas ajudaram a fazer a história de nosso município e, nem sempre tiveram o reconhecimento e o valor que deveriam ter.

Hoje vamos falar de uma MULHER, que aqui viveu, constituiu família, criou seus oito filhos e teve uma participação cultural intensa no desenvolvimento de nossa cidade.

Vamos falar de Áurea Neves Rodrigues, filha de Silvino Neves e Maria Júlia de Oliveira Neves. Nascida dia 12 de novembro de 1912, em Paramirim (BA) e aqui faleceu em 04/09/1962. Seu pai, Silvino Neves, era músico, compositor, arranjador, maestro da Banda de Música e preparador de coros na igreja católica.

Na década de 20, veio com sua família para Pontal (SP) e, depois Monte Aprazível. Aqui montou uma pequena indústria de sapatões e calçados femininos. A “Sapataria Bahiana” estava instalada na Rua da Matriz, 33, local onde o Sr. Abdalla, depois, construiu sua residência.

Áurea Neves, a mais velha dos sete filhos, aprendeu teoria musical, solfejo, leitura, violino, violão, órgão, harmonia, bandolim e a difícil arte de escrever as músicas que ouvia e ainda a fazer arranjos, sendo considerada portadora de um ouvido musical absoluto. Teve uma vida repleta de atividades musicais.

Em Monte Aprazível ajudava seu pai na sapataria, costurando os cortes (couros) para os sapatos.

Nessa atividade conheceu Nestor Rodrigues, que era um dos oficiais da Sapataria Bahiana, com quem veio a se casar. Áurea já era integrante de Jazz-Band, grupo musical que atuava nos eventos sociais, recreativos, culturais e religiosos, nas décadas de 1920, 1930 e participava das projeções de filmes, no antigo cinema local, o cinema mudo, onde hoje mora a Sra. Leonor Gradella. Como o cinema era mudo, todas as projeções de filmes necessitavam de músicas apropriadas, que ficavam a cargo da Jazz Band.

Áurea participou ativamente de uma festa organizada pelo Ginásio e Grupo Escolar em 15 de janeiro de 1933, uma sexta-feira, mostrando a intensa atividade cultural da cidade, já naquela época.

As cerimônias religiosas, principalmente as do Padroeiro, contavam com a participação dos músicos locais.

Em meio a esse mundo musical, Da. Áurea foi criando seus oito filhos: Maria Aparecida, José Maria, Adelaide, Dalva, Silvino, Maria de Lourdes, João Antonio e Benedito Manoel, dividindo seu tempo entre os afazeres do lar, atividades musicais e outras com aulas particulares de alfabetização de Português, Matemática, aulas no curso primário e trabalhos de costura e crochê, necessários à sobrevivência da numerosa prole, contando sempre com o apoio de sua mãe, Maria Júlia.

Ela realizava frequentes ensaios, copiava as partituras para os cantores e instrumentistas; escrevia as novas que ouvia pelo rádio. Nos meses de maio e junho eram diariamente realizadas as rezas solenes e ela estava sempre à frente dos cantores como organista, enriquecendo as cerimônias, nos meses de maio, com a Ladainha de Nossa Senhora, cantadas diariamente, e Ladainha do Coração de Jesus, no mês de junho.

Exigente, Da. Áurea ensaiava sempre na igreja ou em sua própria casa e, como não gostava de repetir os mesmos hinos, para evitar monotonia, ensaiava ladainhas diferentes para cada dia.

As missas do Padroeiro recebiam uma atenção especial. A cada ano era preparada uma missa de compositor diferente e sempre a várias vozes.

Como professora de música, Da. Áurea promovia frequentes audições musicais onde seus alunos executavam peças de piano, violino, violão, acordeão e canto. Sempre preparava músicas em conjuntos de violinos, acordeões e violões.

Também gostava de teatro. Encenou, com grande sucesso, o conto de Perraut, adaptação de Maria Clara Machado, “O Chapeuzinho Vermelho”, em 3 atos.

Da. Áurea e a Professora Nadyr C. Luz promoviam anualmente festivais artísticos.

Da. Áurea foi membro da Ordem dos Músicos do Brasil. Gostava muito de escrever e seus artigos eram repletos de fé cristã e profunda filosofia.

De 1925, quando aqui chegou, até 1962, ano de sua morte, sempre realizou trabalhos que promovessem e valorizassem a cultura.

Em relação aos oito filhos, deu-lhes um imenso tesouro, que foi, com grandes sacrifícios e lutas, encaminhá-los para uma vida honesta, responsável, de trabalho, de respeito, de estudo, consideração pelo próximo, dedicação de amor e fé em Deus e realização profissional. Todos possuem curso superior, aperfeiçoamento, alguns pós-graduação e dois são engenheiros eletrônicos, formados pela USP.

A música do Hino de Monte Aprazível é de autoria de um de seus netos.

Teve uma existência intensamente vivida, o que lhe fez superar um casamento não muito feliz e, ao mesmo tempo feliz, ao lado dos oito filhos, sua família e a música.

As pessoas que a conheceram dela se lembram com respeito e admiração.

Enquanto expirava, às 16 horas do dia 4/9/1962, numa tarde totalmente ensolarada e seca, caiam leves pingos d’água, ao som da Ave Maria, que o Cônego Altamiro fez ecoar dos alto-falantes da Igreja Matriz, para ressaltar o fim de uma existência cristã de lutas e de realizações.

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