João Francisco Neto: A sociedade do espetáculo

Em 1967, o filósofo francês Guy Debord publicava uma obra, cujos reflexos se irradiam até os nossos dias: “A Sociedade do Espetáculo”, que trazia uma dura crítica aos meios de comunicação de massa, considerados como estimuladores do consumismo irracional.

Debord, estudioso da estrutura da sociedade capitalista, observou as relações sociais e constatou que tinha havido uma degradação do “ser”, que passara a dar lugar ao “ter”. Para os indivíduos seria, então, muito mais importante “ter” alguma coisa do que “ser” alguma coisa.   Assim, para Debord, a sociedade capitalista se apresentava como uma sociedade do espetáculo, onde o que mais importa é a imagem, a aparência e a exibição. A ostentação do consumo vale mais do que o prazer do próprio consumo. A aparência se impõe sobre a existência, de forma a ser mais importante parecer do que propriamente ser.

Veja-se que o livro, embora publicado há cinquenta anos, é de uma atualidade gritante; daí a importância de sua leitura, nessa verdadeira era da representação, em que seres humanos, alienados pela cultura do consumo sem limites, dão mais valor à aparência do que à autenticidade das pessoas.

Mas, não é só isso. Hoje, a chamada sociedade do espetáculo se apresenta como um mundo de imagens, que conta mais do que a própria realidade. Vivemos todos numa espécie de “escravidão midiática”, consumidos por mensagens insistentemente veiculadas pela TV, propagandas, marketing, redes sociais da internet, etc.

Estamos tão impregnados e dominados pelo espetáculo da mídia que só damos crédito àquilo que foi noticiado – é a realidade transformada em imagens. Se, porventura, a mídia não noticia alguma coisa, tendemos a achar que o fato não aconteceu, ou seja, a “validade” da realidade somente se dá quando o acontecimento vira um “espetáculo” da mídia.

Tudo isso se presta às mais variadas manipulações: para vender produtos, para eleger políticos, para aumentar o consumo de coisas desnecessárias, para melhorar a imagem dos governos, etc.

Aí estão os grandes eventos esportivos (Jogos Olímpicos, Copa do Mundo, etc.), amplamente patrocinados pelo governo, não porque considerem que o esporte seja tão importante assim. Apenas querem se aproveitar da imagem “positiva” que o espetáculo do esporte poderá proporcionar-lhes.

Estamos tão impregnados e dominados pelo espetáculo da mídia que só damos crédito àquilo que foi noticiado – é a realidade transformada em imagens. Se, porventura, a mídia não noticia alguma coisa, tendemos a achar que o fato não aconteceu, ou seja, a “validade” da realidade somente se dá quando o acontecimento vira um “espetáculo” da mídia.

Essa foi a grande sacada de Guy Debord, que há muito tempo percebeu que o mundo passaria a ser, definitivamente, comandado pelo poder da imagem. A imagem manipulada é tão forte, que, em muitas situações, pode substituir a própria realidade das coisas, e até mesmo de pessoas, que passam a ser objetos descartáveis.

Todo esse processo se realiza, é claro, com muitas vantagens para quem produziu o “espetáculo”.

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