Walter Spolon: Futebol e bailes do Cipriano

A paixão do brasileiro pelo futebol sempre foi intensa. O sonho de todo garoto era, e é, de um dia tornar-se um grande e famoso jogador de futebol. Nos idos anos das décadas de 1950 e 1960, ainda era maciça a fixação do homem no campo, onde predominava a exploração cafeeira. Nas grandes fazendas, e mesmo nas pequenas propriedades rurais, era certa a existência de campos de futebol.

E, para aqueles que não praticavam tal esporte, o gosto em assistir aos jogos de futebol era predominante entre os homens, qualquer que fosse a idade, mas as mulheres também disputavam esse espaço. Mesmo porque a variedade de entretenimento disponível era pequena. Por sinal, moradores do meio rural, em especial os jovens, gostavam muito de comparecer nos campos de futebol, porque esses se constituíam em raras oportunidades de paquera, haja vista que as mocinhas também compareciam. O esforço para se fazer presentes nesses eventos era espantoso, visto que, dada a precariedade do transporte daquela época, o pessoal ia a pé, a cavalo, de bicicleta, de charrete, na carroceria de caminhão, na carreta do trator etc.

Nas cidades, os lotes de terrenos desocupados serviam para os meninos montar seus pequenos campinhos, com traves de bambus. O chão batido, nada de gramado, era demarcado com cinza de fogões a lenha, ou, ainda com casca de arroz, obtidos nas máquinas de beneficiamento de arroz, o que fosse mais fácil conseguir. Até serragem era usada para esse fim.

Num dos sítios mais próximos da cidade, no caminho para a Malvina, estrada para a Água Limpa, existia o sítio do José Cipriano. E foi aí que seus filhos Wilson e José  Orzil, juntamente com alguns amigos, resolveram construir um pequeno campo de futebol, para preencher as poucas horas de lazer. Como ficava na marginal da estrada da Malvina, o campo de futebol, logo se tornou conhecido e, nas manhãs de domingo, passou a ser o ponto de encontro da molecada que gostava de futebol. Logo, se tornou um dos lugares disputados, para quem queria jogar e, mesmo, para quem gostava de assistir aos jogos. Logo começaram os torneios.

As equipes eram formadas por rapazes do meio rural e os da cidade. Muita gente conhecida passou por lá, desfilando sua categoria, dentre eles: Irmãos Mariano, Acácio Ferreira Rodrigues, Benedito Struzziato, Cidinho, Luizinho Vergílio, Irmãos Padovez, Irmãos Fedocci, Toninho Campeiro, Urias de Oliveira, Carlos Teixeira, Geraldo e Júlio Quarezemin, Irmãos Minucci, Irmãos Guimarães, Irmãos Cassandra, Castelan, Irmãos Stéfani, Jeovah Ferreira e tantos outros.

E, assim, os senhores mais idosos da cidade, muitos deles descendentes de italianos, não perdiam um jogo de domingo por nada, dada a proximidade do campo em relação à cidade. Era ali seu passatempo dominical e, muitos deles, aproveitando a sombra de frondosas mangueiras, praticavam o jogo de baralho, com os conhecidos gritos de truco.

Paralelamente a isso, o time precisava de recursos, para pagamento da conhecida “garantia” da vinda da equipe adversária, bem como para a compra de materiais de futebol, como bolas de capotão, apitos, camisas, calções, chuteiras, redes do gol, joelheiras para os goleiros e cal, para a pintura das linhas demarcatórias, bombas de ar etc.

Foi, então, que surgiram os bailes rurais, no terreiro do café, onde era erguida a barraca de bambu, coberta com encerados. Para abrilhantar tais bailes, ninguém melhor do que o conhecido e já famoso “Zé Canhoto”, juntamente com os filhos Luzia Ornelas Leal e Maurílio Ornelas e outros integrantes.

Apesar de muito próxima à cidade, a Fazenda ainda não contava com energia elétrica. A solução era utilizar a bateria de caminhão, que aguentava apenas uma noite.

Por volta de 1967, 1968, por iniciativa do saudoso radialista Armando Costa Netto e alguns músicos da cidade, foram realizados Bailes de Carnaval, com participação total do povo da cidade e grande sucesso. Quem lá esteve se lembra com saudades.

Como dissemos anteriormente, a participação dos torcedores era intensa, lotando todos os barrancos do campo de futebol. Com muitos italianos presentes na torcida, eram comuns os xingamentos ao árbitro, principalmente.

Como a torcida era composta na sua grande maioria por descendentes de italianos, ouvia-se a todo instante “desce o sarafo na canela daquele grandon”, “vô ti dá um muro, juiz ladron”, “”furô goro ô num furô goro?, “parece qui aquele piquinininho que marcô o goro tava impidido, “agora foi pênis, juiz cachorom e ucê num marcô, maledeto!”

Sem contar o “bate-boca” que se estabelecia entre jogadores do time local, jogadores, adversários e árbitro.

Resumindo: Tempo bom, que não volta mais, mas está gravado na memória de quem teve a felicidade de participar!

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