Escritor Tin Spolon morre a duas semanas do lançamento de seu livro

Coluna em A Voz Regional e projeto da obra ajudaram o professor a suportar a dor e a se manter vivo por 18 meses

A constatação fria da medicina de que nada mais havia a ser feito para debelar o tumor, não abateram o ânimo do paciente Walter Spolon. Afinal, a cada férias que se mantivesse vivo mais teria convivido com as netas, residentes em São Paulo e a cada semana, mais uma coluna sobre o cotidiano de Monte de décadas atrás seria publicado em A Voz Regional para posterior edição em livro. Assim se passaram 18 meses.

Tin Spolon, como era conhecido por amigos, ex-alunos e por todos na região, onde foi bancário, fotógrafo, professor, diretor de escola, dirigente de ensino, diretor de clube social, morreu às 23h do dia 7, na Santa Casa de Monte Aprazível, aos 73 anos. O corpo está sendo velado na Capela Prever e será enterrado às 16h30, no cemitério de Monte Aprazível.

A última coluna para o jornal foi concluída no dia 2,  lhe consumiu  brutal esforço e lancinantes dores ao digitá-la. O tumor, no pulmão, pressionava-lhe o esôfago, impedindo-o de se alimentar, nervos e músculos da omoplata, o que fazia do ato de digitar um suplício.  “Quando ele começou a escrever para o jornal já não fazia mais tratamento, suspenso pelos médicos. Os medicamentos se limitavam a opiáceos que pouco amenizavam a dor.  O Tin sofreu bastante, fortes dores, noites insones, com dificuldade de engolir ou inapetência, mas raramente manifestava o desconforto, manteve sempre o humor, os gestos contidos, a voz baixa. Era uma resignação tácita e racional diante do inelutável”, lembra o editor de A Voz Regional, Carlos Carmello.   

O lançamento do livro e noite de autógrafo foi marcado por ele mesmo, no dia 23 de fevereiro, dia de seu aniversário.  Tim chegou a ver a arte final da capa, mas não teve tempo para ver o livro impresso, concluído pela gráfica hoje. Não haverá noite de autógrafo, mas o lançamento, agora póstumo, teve a data mantida pela família, a mulher Vera e os filhos Ana Paula e Fabrício.

O projeto

Tin foi diagnosticado com câncer em 2014. Em meados de 2016, propôs ao editor Carlos Carmello  escrever uma coluna no jornal. “A primeira crônica foi publicada em 27 de agosto de 2016, no início da campanha eleitoral, e nela Tin se revela “estarrecido” com o nível dos candidatos. As colunas seguintes foram nesse caminho político, com críticas ao prefeito e ao candidato que iria substituí-lo. Mas logo ele encontrou o veio histórico e passou a retratar gente, eventos e fatos de Monte Aprazível do passado mais recente, dos anos 50 do século passado para cá, ampliando o número de leitores da coluna”, conta Carmello.

Nas primeiras crônicas históricas, o editor percebeu que havia ali material para um livro, sugeriu a ideia ao escritor/historiador que se entusiasmou. “O Tin tinha um texto muito limpo, com estrutura narrativa dentro dos padrões linguísticos, gramaticalmente cuidada. As informações eram precisas de quem viveu os fatos e a cidade da época retratada. É uma leitura muito gostosa e historicamente muito útil.”

A edição do livro foi feita pela filha Ana Paula. Faltou muito pouco tempo para que Tin pudesse manusear a sua obra. A impressão foi concluída, em Catanduva, 12 horas depois de sua morte.

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