Walter e Ana Paula Spolon: Hoje não vai ter crônica

Na última segunda feira, dia 06 de fevereiro, conversei com meu pai pela última vez, antes de ele entrar em estado de inconsciência e nos despedir de nós. Uma parte da conversa foi mesmo só nossa. Aquelas coisas que a gente fala na hora da despedida. Uma recomendação para devolver fotografias e livros que ele havia tomado emprestados para escrever as crônicas, um abraço enviado ao meu marido, um beijo para cada uma das minhas filhas, uma pergunta sobre o meu trabalho e sobre o concurso a que me submeti recentemente na USP, um conselho sobre fotografia (ele sempre corrigiu minha maneira de usar o flash – quem sabe, agora, aprendo a forma correta), a informação sobre onde pegar a caneta tinteiro e o vidro da tinta Parker que me deu de presente, outro abraço enviado ao Brito e um (pequeno) lamento sobre não poder ver pronto o livro das crônicas.

Por último, me disse que em cima da mesa do escritório estava “meia crônica”. Explicou-me qual era o assunto – os postos de gasolina de antigamente – e disse: “Acabe de escrever e mande para o Carmelo. Até quarta-feira. Tem três fotografias junto. Prenda-as na parede – você sabe como fazer. Tire foto das fotos e insira as imagens no texto. Não tire de outro jeito, não fica bom. Ponha na parede perto da casinha do gás”. Cheguei em casa e fui procurar as fotografias e o papel. O texto estava numa folha branca de rascunho, onde numa letra fragilizada, mas com estética inconfundível, ele registrou:

“Quase todos os postos de gasolina de nossa cidade fazem parte ativa do passado de nossa cidade. Você já deve ter ouvido falar do Posto do Chiquinho de Paula, do Posto do Jessé e, depois, do Sanitá. Deve se lembrar também dos postos do Honório Dias, depois do Maionchi; do Posto do Marauto (Volkswagen); do Posto Garcia, do Sr. José Garcia e depois do Chico Ruy; do Posto da VAP, depois do Romeu Medeiro e, hoje, do Mitu Nagata. Pois é, amigos, todos eles ajudaram a fazer a história de nossa cidade. Tempos em que a gasolina custava centavos. Ah, não posso deixar de citar, também, que muitas pessoas se davam o luxo de abastecer seus automóveis com gasolina azul, usada na aviação. Nessa época, é claro, o número de veículos era bem menor. O preço dos combustíveis permanecia inalterado durante muito tempo. Embora o Brasil naquela época tivesse que importar toda a gasolina aqui consumida, a variação de preços era mínima. Nada comparado aos dias de hoje. E a sua qualidade era inquestionável. Mas, como tudo nessa vida, o tempo não para (tanto as coisas boas quanto as), tudo muda, tudo se transforma”.

[o texto acaba aqui]

Desse tempo, não lembro. Sei um pouco da história do posto que foi do meu avô e depois do tio Ruy, pelas histórias contadas por minha avó Nair e por minha tia Nena e depois vividas por nós, nas tantas vezes em que, subindo a Rua Brasil, passávamos por pela calçada e víamos a rotina do posto, já administrado pelo tio Ruy e depois pelo tio André. Pensei em conversar com ele e pedir que me contasse histórias. Pensei em ir até o Mitu e buscar informações. Olhei as fotos e não conheci ninguém. Minha mãe me falou que o senhor à esquerda na foto, mais baixo, é o Seu Sanitá. Os outros, ela não reconheceu.

O que isso quer dizer? Quer dizer que essa história deveria ser contada pelo meu pai e não por mim. Quer dizer que esse espaço d´A Voz Regional era dele, não meu.

Como ele mesmo disse ao final, “como tudo nessa vida, o tempo não para […], tudo muda, tudo se transforma”. Para nós, na última quarta-feira, dia 07 de fevereiro, tudo se transformou. E eu, sem pensar muito, respondi positivamente a algumas pessoas que vieram me dizer que eu deveria continuar escrevendo, no lugar do meu pai, para o jornal. Mas não posso.

Não se trata de não querer colaborar. Talvez eu até tenha algumas histórias para contar, talvez possa inventar outras, com feição de pequenos contos, quem sabe até pudesse escrever alguns artigos de opinião, sobre literatura, música, viagens, as coisas que eu gosto, algumas das quais me foram apresentadas pelo meu pai. Mas não. O respeito maior que posso ter por este espaço é deixá-lo vazio.

Tomo a liberdade, portanto, de ocupá-lo só hoje, para falar do meu pai. Não do homem que andava na rua e era conhecido de todos. Não do professor, ou do fotógrafo, ou do diretor do clube, ou do presidente da Associação Comercial, ou do vizinho, ou do amigo, ou do conhecido. Essas figuras cada um de vocês, à sua maneira, conhece. Falo do homem que aqui em casa, em quatro paredes, minha mãe, eu e meu irmão conhecemos, depois minha cunhada e meu marido e, enfim, os nossos filhos. Do Tin que só a família e os amigos mais próximos conheciam.

Quando eu o conheci, ele tinha 27 anos. Foi em 1969. Ele havia se casado dois anos antes com a minha mãe – contam que com uma festa de arromba. Fomos apresentados de um jeito meio esquisito e me contam que eu chorei. Por três anos e meio, vivi com ele e minha mãe somente, até a chegada do meu irmão, um bonequinho que apareceu na nossa casa em 1973. Minha mãe conta que eu era meio desajeitada para segurá-lo, mas que meu pai me ajudava. Nessa época, tínhamos voltado de São Paulo, depois de um breve período de estudos do meu pai, na área de Artes Industriais. Ele havia tido também aulas de fotografia e eu, com quatro anos, virei modelo.

Por décadas eu e Fabrício estivemos na mira das lentes das máquinas fotográficas dele e nos emaranhávamos nos rolos de filmes no laboratório no fundo de casa. Havia um quintal grande, com terra vermelha e árvores frutíferas. Aos poucos, meu pai foi mudando uma coisa aqui e ali, cimentando, fazendo canteiros, enfeitando tudo. Em 1977, construiu a nossa piscina. Não se tratava de luxo e riqueza. Ele mesmo fez o projeto e riscou o chão. Eu me lembro de ele amarrar fios de nylon nas árvores e pendurar vidrinhos de remédio para marcar o nível. Seu João Hernandes era o mestre da obra. E os dois, sozinhos, cavaram um buraco retangular de quatro por oito metros, com um e um e meio de profundidade, que depois revestiram com cimento e azulejos azuis. A prefeitura, à época, estava trocando as placas das ruas da cidade e lembro-me de ir um dia com ele na garagem, pedir a não sei quem umas placas velhas, que seriam descartadas. Elas estão até hoje nos muros do quintal da minha casa. Depois ele fez uma churrasqueira e um cômodo que era uma espécie de vestiário com cozinha e ali começou a melhor infância e adolescência do mundo, para mim e para o meu irmão.

Por anos, a nossa foi a única piscina da cidade. Ele cuidava dela com esmero, garantindo que em todos os finais de semana pudéssemos chamar nossos amigos e nos divertir. Podava a hera do muro, catava as frutas caídas no chão, tinha até um limoeiro, que alimentava as caipirinhas preparadas pelos adultos, os vários casais de amigos que estavam sempre conosco.

São tantas as histórias vividas com amigos – meus, do meu irmão e dos meus pais – no fundo do quintal da minha casa que seria insano contá-las aqui. Mas algumas me são especialmente caras, pela emoção. O dia em que alguém entrou correndo e interrompeu uma roda de violão para avisar do acidente que vitimou, entre outros, o tio Esuperândio, pai dos meus amigos Marcius e Lucius Júlio, que foram nossos vizinhos de frente. Minha mãe tocava “Bandeira do Divino” ao violão e eu estava sentada no chão, brincando. A festa acabou. E também o dia em que minha mãe me mandou fechar a janela do escritório e eu ouvi um barulho no quintal. Abri e havia quase uma centena de pessoas cantando parabéns. Era meu aniversário e a Rosicler e a Renata Sant´Anna, com a ajuda do meu pai, haviam organizado uma festa surpresa. Meu pai tinha dado a volta pela garagem e, quando abri a janela, estava posicionado bem de frente, registrando em imagens a minha cara de boba, chorando. Ou meu irmão reunido com Carlinho Marchese, Robertinho e Cássio, embaixo da jabuticabeira, fazendo churrasco e ele chegando do Gum com uma garrafa de coca litro para eles e dizendo: “Vocês não estão bebendo demais”?

Por aqui, ele não parava um minuto. Se não estava arrumando alguma coisa da casa, cuidando das plantas ou estendendo roupa no varal, estava em algum canto fazendo palavras-cruzadas. Não sem antes sair para o mercado, a feira, a visita diária à minha bisavó e bisavô enquanto eram vivos, à venda do tio Nelson, ao bar do tio Abílio, à minha avó Linda e ao meu avô Antônio e depois às minhas tias Landa e Mafalda. Esforçava-se por cuidar de todos, adorava os sobrinhos, ia a tudo a que fosse convidado. E fazia, com minha mãe, festas. Gostava de festas. Gostava de gente em casa, de mesa farta, de barulho. Observava tudo, em silêncio.

Meu marido outro dia falou dele e de seus “gestos discretos e simples de serviço e de hospitalidade. Na maioria das vezes, acompanhados de silêncio, o que é comum em quem sabe cultivar a arte rara de transformar discurso em prática”. Em casa, sempre foi assim.

Lembro o dia que ele chegou em casa contando que ia ser da diretoria do clube. Foi Diretor Social e depois presidente, por duas ou três gestões, não me lembro bem. Foi puxado pelo Valmir Camilo, amigo de longa data. Em dado momento, como presidente, decidiu mudar as coisas. Vivíamos lá dentro ajudando-o. Ele confeccionou carteirinhas, reorganizou o quadro de sócios, reformou o espaço físico, renovou o mobiliário, decorou o palco (a Tercilisa uma vez comentou que depois dos espelhos instalados nas paredes os Festivais de Jazz de todos os anos ficaram muito mais bonitos), reestruturou o espaço externo do bar e as portarias principal e de serviços, consertou banheiros, comprou um aparelho de som novo potente, instalou um globo espelhado, arregimentou um movimento de doação de discos. Uma noite, chamou o seu Manolo e o seu Jesus para uma reunião. Falou para eles que “tinham que se reinventar”. Que o clube ia passar por uma renovação e que a ideia era trazer jovens e adolescentes e que eles (todos) tinham que “aprender a falar a língua deles”. Lembro da clara do seu Manolo. Como assim, a língua deles. E como seu Manolo falou bem a “nossa língua”.

E aí ele começou a promover as noites de discoteca, os concursos de dança, os bailes mensais com orquestras, os carnavais de salão, com agenda ajustada com o carnaval de rua, os bailes temáticos (Baile Branco, Baile do Ridículo, Baile de Debutantes). Trazia artistas de televisão – Flávio Galvão, Elke Maravilha, Jair Rodrigues. Nos carnavais, começou a ter rainhas do baile adulto e do baile infantil. Nadir Barca, Zilaene Domingues, eu, Cristiane Pinatti, Alice Cláudia, Daniela Cury. E fotografava. E registrava. E fazia. E acontecia.

Era também, na época, com minha mãe, dono da Wave (de Walter + Vera, vejam só!) Modas e – louco! –, fazia umas coisas muito esquisitas – desfiles de moda com modelos de fora, no clube, na rua Brasil a céu aberto (a rua era fechada e a Prefeitura tinha que por seguranças), vitrine viva. E anunciava na Globo. Um visionário.

Não me lembro do meu pai reclamando de nada ou falando mal de pessoas. Respeitoso, se pensava, guardava para si. Foi um crítico, sim, de política – algo disso apareceu nas primeiras crônicas escritas para este jornal. Mas sempre as vi como construtivas.

Outra característica sua foi a da amizade. Teve amigos de uma vida toda. Os que o foram, sabem disso. Nas minhas lembranças de criança, estão o seu Anivaldo Manzatto, o seu Homero, o seu Alcides Calvo, o Carlos Henrique (da CPFL), a Marina Macri, a Sônia Crespilho, a América e o Gilmar. Na década de 1980, chegaram a Tânia e o Jair Colnaghi, tão próximos e queridos que se misturaram na nossa família, viraram compadres, padrinhos, tios, pais. E, mais recentemente e com igual força, a Cecília e o Eder Trombim. E tantos outros. Se eu insistir em falar nomes, vou ser injusta.

Em família, acho que fomos normais. Meu pai viveu 50 anos com minha mãe. Com seus altos e baixos, dificuldades e alegrias. Mas um olhou pelo outro, a vida toda. Cuidado mesmo. De verdade. Preocupação. Atenção. Zelo. Um sabia do outro, um pressentia o outro. Minha mãe foi sua companheira de fato. E ele, muito mais do que um marido, foi um cuidador. Em todos os sentidos.

O meu pai teve no meu irmão muito mais do que um filho. Ele foi o assistente mais fiel de fotografia e filmagem, no Foto Tin. Por muitos anos, carregou nas costas a filmadora ou o refletor, em especial quando os ombros do meu pai já doíam por conta da bursite. Lembro quando ganhou o tão sonhado carro. Bem, não era exatamente um carro. Era um Fusca, a grande paixão de colecionador dele, até hoje. Foi um jovem estudioso e, diria, intenso. Um dia, apaixonou-se pela filha da dona da padaria, uma moça bonita que tinha um sorriso aberto e personalidade forte. Debandou para Campinas, grudou nela e nuca mais largou. E meus pais ganharam uma filha que, há mais de duas décadas, os têm como pais. E que cobriu e cobre tantas das ausências que eu mesma deixei. Deles vieram Gabriel, o primeiro neto e o único neto homem. E as gêmeas Manuella e Rafaella, que meu pai viu crescer até a tenra idade de seis anos, quando todas as belezas despontam e a graça da infância alegra os dias dos avós. Duas figuras, duas queridas.

Eu saí de casa muito cedo, aos 16. Minha mãe sempre disse – e acho que tem razão – que nasci com mochila nas costas e asas nos pés. Estou em São Paulo há 27 anos, muito mais tempo lá do que dentro da casa dos meus pais. Isso, muitas vezes, entristeceu o meu pai. Quando comecei a faculdade de Letras, senti que o coração dele até acreditou que eu ficaria em Monte Aprazível e que seria professora de inglês numa das escolas onde ele trabalhou. Durante um tempo, de fato fui. Mas a alma da gente é um mistério e a minha sempre foi errante. Mudei-me para São Paulo aos 21 e nunca mais voltei. De nenhuma forma isso significa esquecimento, desprezo ou desamor. Mas a distância dificulta muitas coisas e sei o quanto meu pai desejou, muitas vezes, que eu estivesse mais próxima. Um dia, liguei e disse: estou grávida e vou me casar. E cheguei um mês depois com o moço, um homem bonito e com voz doce, sereno como o meu pai e, eu acho, em muita coisa muito parecido com ele. Ele e minha mãe o receberam com um abraço e meu pai esticou para ele um copo de cerveja gelada. Ele nunca se esqueceu disso. Meses depois, chegou a nossa Bia. Três anos depois, a nossa Verônica. E há ainda a Aline e a Jaqueline, netas postiças, trazidas por nós. Era o quinteto de netos crianças e as “netas grandes”, como minha mãe gosta de falar.

Nos últimos anos, acordamos todos os dias com a esperança de que ele estivesse bem e que aproveitasse o dia da melhor forma possível. E assim foi, até a última quarta. Não sei se meu pai leva as histórias em família – as boas e as ruins – no coração. Eu creio que sim. Hoje, andando pela casa, eu o vejo em cada canto e o sinto bem perto. Tenho certeza que será assim com todos nós – filhos, esposa, netos, irmãos, sobrinhos, primos, tios. O que conto a vocês é que, para nós, ele foi uma pessoa como todas as outras. Mas foi nosso. E isso, talvez, seja o que faça toda a diferença.

Agradecemos a todos vocês pelo apoio nesses meses todos, por cada comentário carinhoso a cada crônica escrita, pelo incentivo a que ele puxasse pela memória tantas histórias incríveis e pelas observações sobre as falhas dessa mesma memória. Seu Carmelo escreveu ontem que o projeto das crônicas estendeu a vida do meu pai. É verdade. Mais do que isso, a vida dele melhorou. Ele teve tempo de falar de pessoas que admirava e de entregar a todos os habitantes de Monte Aprazível o carinho que sabemos que ele sempre teve por esta cidade e por quem aqui vive. Ao seu Carmelo, dono da ideia e grande incentivador, deixamos nossa gratidão. Obrigada, muito obrigada!

Só uma coisa meu pai não teve tempo de ver. O próprio livro, que ficou pronto no dia do seu sepultamento. Eu mesma tenho uma parcela de culpa nisso, porque em meio às minhas obrigações, atrapalhei-me e demorei muito na revisão. Talvez, se eu tivesse feito antes, ele tivesse conseguido ver. Depois a impressão atrasou um pouco. Não tem problema. Ele viu o boneco do livro, aprovou a capa e soube, antes de partir, que manteríamos o compromisso de lançá-lo. E é com o convite que me despeço da coluna. Se puderem e quiserem, compareçam ao Centro Cultural de Monte Aprazível no próximo dia 23 de fevereiro, às 20:30 horas, para o lançamento de “Foi aqui que eu amarrei meu burro: Monte Aprazível, a minha cidade, pelo meu olhar e pela minha pena”, de autoria de Walter Spolon, o marido da Vera, pai do Fabrício e o meu pai.

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