Cientista monte-aprazivelense vai trazer o saber da Universidade para o interior

Gestores da USP, Vahan Agopyan e Antônio Carlos, apostam em projetos de qualificação municipal e novas vocações

Os projetos de uma universidade inclusiva e socialmente mais próxima da comunidade, proposta pelo brasileiro de ascendência armênia Vahan Agopyan, empossado para a reitoria da USP, no dia 29, e de seu vice, o monte-aprazivelense Antônio Carlos Hernandes, privilegiam o interior. Os programas USP Municípios e Bandeirantes USP empolgam particularmente Antonio Carlos, um cientista cosmopolita preso à origem interiorana da Monte Aprazível dos anos 60 e 70 do século passado.

Antônio Carlos explica que o programa USP Município tem como objetivos oferecer subsídios de gestão pública e cursos de qualificação aos servidores municipais na elaboração e gerenciamento da administração, de projetos e captação de verbas e investimentos. “Há recursos dentro e fora do Brasil, mas é preciso ter bons projetos, viáveis e adequados às necessidades atuais dentro dos conceitos de cidades inteligentes, capazes de se organizar, evitando o desperdício e aproveitando melhor e tendo controle de seus recursos. A Universidade poder mostrar isso para as prefeituras e contribuir para melhorar a formação de seus quadros.”

Como exemplo prático ele cita uma das peculiaridades de Monte Aprazível e de outras cidades da região, ricas em água, recurso natural a ser explorado economicamente das mais variadas formas. “Há 10, 15 anos, era impensável que se podia vender água e no, entanto, hoje ela é vendida e muito cara”, observa ele.

Pelo programa Bandeirantes USP, a universidade pretende mostrar o interior para seus alunos e exibir seus cursos para os estudantes do interior. “A USP tem alunos matriculados em mais de duzentos cursos e para a maioria deles, o interior é Campinas, é o lugar mais longe da capital, e os alunos do interior não têm ideia das oportunidades para estudar, de que a universidade não é só o curso de administração de empresas.” A ideia, segundo o vice-reitor, é desenvolver atividades em que os estudantes conheçam melhor o interior e que desperte nos jovens do interior o interesse por novas carreiras profissionais.

O programa Bandeirantes USP é muito caro ao vice-reitor pela valorização do interior e de suas cidades que, segundo ele, desempenharam e desempenham um importante papel no desenvolvimento do Estado. Ele mesmo faz questão de manter esse vínculo com o interior, especialmente, com Monte Aprazível. Quando indagado sobre sua origem geográfica, Antônio Carlos diz responder ser de Monte Aprazível, “uma cidade que tem um bairro que é muito conhecido como Rio Preto;”

Origem

O filho mais velho do pedreiro Fernando Hernandes e da dona de casa Nicinha faz parte da primeira geração de meninos pobres nascidos no mais novo e distante bairro da então Monte Aprazível de 1959, a icônica e emblemática Vila Aparecida. Depois de Antonio Carlos nasceriam mais quatro filhos do casal, Fernando, Carlinhos (Supermercado), Márcia e Marcos.

O futuro cientista ocupou sua primeira carteira escolar no Alice Salles Cunha, passando ao Capitão para fazer o ensino médio, de 1976 a 78, enquanto trabalhava, no armazém do Luiz Tonon, depois no Aprazível Clube, na gestão de Tin Spolon.

Nessa época, os melhores alunos concluintes do Capitão tinham vaga garantida como estagiário no Banco do Brasil. Porém, eram mais alunos bons do que vagas e o gerente Guilherme Fontana levou o jovem Antônio Carlos para o Hora e Vez, o jornal da época, um semanário com pretensão lítero-cultural, meio informativo, meio diário oficial da prefeitura, como lembra seu ex-jornalista.                 

No Hora e Vez, Antônio Carlos Fazia de tudo: apurava, escrevia, editava, paginava, vendia anúncio, levava o material para gráfica, em Rio Preto, esperava a composição em chumbo, acompanhava a impressão, conferia a dobra, trazia o jornal pronto de ônibus para Monte e distribuía para o assinante. “Antes de levar o jornal para a gráfica eu ligava para o advogado Joaquim Pinto Nazário, em São Paulo, descrevia a disposição do material nas páginas e lia todas as notícias. Ele fazia as correções, e eu modificava. Fiz isso por várias semanas até eu pegar o jeito e ele confiar em mim”, conta aos risos o ex-jornalista. Guilherme era o outro dono do jornal.

Apesar de tanto trabalho e tamanha responsabilidade, o salário era pouco e incerto, não permitia a inscrição em cursinho pré-vestibular para tentar o ingresso na Universidade, o que ocorreria só no ano seguinte. Mas a experiência de dois anos no jornal valeu muito a pena. Foi nele que Antônio Carlos aprimorou o texto, condição muito útil para deixar os escritos científicos menos áridos, e como já era bom em matemática ficou bom em português e aguçou-lhe o senso crítico e analítico, requisitos para a carreira científica.

A incursão de Antônio Carlos na área de humanas, através do jornalismo, foi mero acaso. A aproximação acadêmica com a ciência já tinha se dado com as aulas a campo na captura de anfíbios e insetos, a posterior dissecação e estudos celulares nas aulas de biologia do professor Daltanhan da Silva Reis. As aulas de Física no cursinho, de um professor que Antônio Carlos não se recorda do nome, definiram a opção dele pela Física. 

Graduado pela Universidade Estadual de Londrina, com título de doutor pela USP e estágio na Universidade de Gênova (Itália), Antônio Carlos  assumiu como professor titular do Instituto de Física de São Carlos, em 2008. É coordenador de Ensino e Difusão Científica do CEPID/FAPESP, vice-coordenador do Instituo Nacional de Ciência e Tecnologia de Materiais em Nanotecnologia e coordenador do Centro de Tecnologia de Materiais Híbridos, da USP, e foi pró-reitor de Graduação da Universidade, dentre outros títulos.

Antônio Carlos é viúvo de Lenecy Carmona e pai de André, Marina e de Alice, de um ano, do segundo casamento com Juliana.

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