Produtores da região perdem R$ 762 milhões por safra com o corte mecanizado da cana

Deficiências tecnológicas e operacionais de máquinas e manejos inadequados derrubaram a produtividade dos canaviais

No século passado, quando a pioneira Destilaria Água Limpa  se estabelecida na região, seus poucos e pequenos fornecedores produziam 100 toneladas de cana por hectare e o corte era feito a ferro de facão e fogo da palha, por trabalhadores nativos, com muitas mulheres nos talhões. De lá para cá, muita coisa mudou no setor canavieiro, a começar pela semântica e finanças. Destilarias passaram a ser chamadas de usinas, visionários sem dinheiro como José Arlindo Passos Correia e Donaldo e Dionísio Pinatti, os idealizadores da Água Limpa, deram lugar a investidores internacionais e a tecnologia passou a ditar regras com variedades de cana resistentes às pragas e doenças, adaptadas ao clima, solo e regime de chuvas da região e as máquinas colhedoras entraram na roça.

 

Tecnologia e prejuízo

A introdução de tanta tecnologia e dinheiro  tinha tudo para dar certo. Mas deu errado, muito errado, e o primeiro sinal foi a falência da COPAMA, a cooperativa dos fornecedores de Monte Aprazível, pioneira na mecanização  Depois de tanto avanço, a produtividade média dos canaviais despencou para 70 toneladas por hectares.

O desastre produtivo tem uma vilã, apontada pelo cientista do Laboratório de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, Henrique Franco: as colhedeiras mecânicas. Segundo ele, os estudos revelam que a perda média exclusivamente decorrente da colheita mecânica é de 10%, mas o presidente da Associação dos Plantadores de Cana de Monte Aprazível, Márcio Miguel, na região, seria de 20%.

A estimativa de Márcio pode ser confirmada pelos números de Franco. Respondendo por uma produção estimada em 4% do total da cana mecanizada no Brasil, o prejuízo da região é de 12% do que se perde nacionalmente, ou R$ 752 milhões dos R$ 4,5 bilhões  que o Brasil deixa de faturar anualmente.

Dos R$ 752 milhões,, os fornecedores individuais, associados, usineiros e seus arrendatários deixam de embolsar R$ 320 milhões,, o que explicaria a descapitalização dos produtores e dificuldades de usinas e frentes de trabalho.

As sete usinas da região (Monte Aprazível, Tanabi, Sebastianópolis, Planalto e Meridiano) para quem os fornecedores entregam cana, moeram na safra que se encerrou em novembro 20 milhões de toneladas, portanto, 4 milhões de toneladas deixaram de ser produzidas e ou se perderam na roça. Se processada, a receita seria de U$ 60 por tonelada, a uma cotação R$ 3,3m geraria R$ 752 milhões de receita. O fornecedor deixou de receber R$ 320 milhões, correspondentes aos R$ 80,00 a tonelada de cana não produzida.

 

Tecnologia e problema

O pesquisador do CTBE, em entrevista a revista especializada do setor,  é categórico: “O que mais contribuiu para a queda da produtividade brasileira nesse período (últimos 10 anos) foi a mecanização.”  Ele afirma que os equipamentos utilizados nos canaviais não atendem às necessidades do campo e não cumprem os requisitos para um manejo eficiente. Entre eles estão a compactação do solo causada pelo tráfego constante das máquinas, o consumo excessivo de mudas e os elevados índices de perdas nos canaviais.

Franco não vê preocupação da indústria de máquina, ao menos no curto prazo, em encontrar soluções técnicas para o problema.

Para o gerente de produção da Aplacana, o agrônomo João Aoki,  a mecanização não é um mal em si, desde que planejada e sistematizada, segundo ele,preocupação não observadas como deveria na região.

“A área deve estar sistematizada para que o tráfego das colhedoras e dos transbordos não pisoteiem as soqueiras, a velocidade da colhedora não pode ser excessiva; as variedades melhoradas para que suportem este novo sistema de colheita e a mão de obra capacitada para realizar a operação com eficiência. As colhedoras devem estar em perfeitas condições de operacionalidade, com facas trocadas diariamente. Na nossa região, apesar de ter tempo suficiente para este planejamento, a maioria não sistematizou sua área para a colheita mecanizada e tão pouco tem capacitado a mão de obra”, reclama Aoki.

Segundo Aoki, dos 287 fornecedores associados, menos de 10 atingem produtividade de 100 toneladas, mais de 90 ficam abaixo da média.

Para Aoki, além da sistematização da colheita mecanizada,  a observação de outras práticas de manejo contribuiria, para elevar a produtividade, ao menos para 85 toneladas. Ele cita como práticas ideais o controle integrado de pragas e doenças, gestão da colheita e do comportamento do clima e elevação da idade média dos plantios.

Porém, ele mesmo reconhece que essas práticas não são aplicadas em virtude da baixa capacidade de investimento do produtor, “motivada pelo preço da cana abaixo do custo de produção e valores muito alto de arrendamento que  aniquilam a capacidade do produtor investir na renovação e melhoria do canavial.”

 

Tiro no pé

A realidade demonstra que o setor não estava preparado para a mecanização, quer pela tecnologia operacional das máquinas, como alega Franco, quer pela incapacidade dos produtores em bancar investimentos tão elevados em colhedoras, tratores, caminhões, quer pela adequação das máquinas, como denuncia o estudioso Henrique Franco,

Mesmo com esse quadro, as próprias entidades de produtores estimularam, a partir de 2005, propostas de antecipação do fim das queimadas de 2031 para 2011, parcialmente, e definitivamente, em 2014, agindo mais como  representantes da indústria e revenda de máquinas do que dos plantadores de cana. Hoje, alguns dirigentes de entidades de fornecedores têm familiares como proprietários de revendas. A antecipação da proibição do corte manual abriu espaço para a fabricação e recenda de máquinas..

Márcio Miguel se esquiva de entrar nessa discussão acerca de um eventual conluio entre dirigentes e indústria e revenda, atribuindo as negociações para antecipação à questão ambiental. “A pressão era insustentável, com municípios criando leis contra o corte manual na palha, o Ministério Público propondo ações e a Justiça acatando denúncias e proibindo o corte da palha e os órgãos de controle ambiental aplicando multas”, lembra Márcio.

Remuneração da cana em 2018 foi menor que na safra de 2017

O fornecedor de cana da região não perde apenas com a cana que fica na roça ou sequer é produzida por inadequação da colheita mecanizada, ele está recebendo um valor menor pela cana nesta safra. A informação é do presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Monte Aprazível (Aplacana), Márcio Miguel.

Márcio conta que embora nos dois últimos anos, o fornecedor teve um acréscimo no preço da tonelada, na safra 2017/2018 estão recebendo menos. Na safra 2016/2017 a  o valor da ATR ( índice sacarose) fechou em R$ 0,6839 e na safra atual o valor vai ficar em R$ 0,59 o quilo. “Quando nós fechamos em R$ 0,6839 tínhamos expectativa do valor se manter ou aumentar, porém com o recorde na produção de açúcar nos últimos anos no Brasil e em países como a Índia, Tailândia e na Europa, acabou havendo excesso de oferta e o preço caiu”.

Os associados da Aplacana colheram, segundo o presidente da entidade, em torno de 2,2 milhões de toneladas de cana. O preço médio recebido “até agora” foi de R$ 80,00 bruto pela tonelada, sendo que o custo de produção dessa cana tem ficado em torno de R$ 80,00. “Na média, a rentabilidade está empatando com o investimento”, diz.

Apesar disso a safra na região de Monte Aprazível está dentro da média nacional. “O problema é que a maioria dos fornecedores está com o caixa baixo por causa dessa crise no preço do açúcar”, comenta. Márcio explica que houve excesso na produção de açúcar nas safras de 2015/2016, 2016/2017 até a metade da safra atual, quando houve reversão nas unidades industriais para aumento na produção de álcool e diminuição do açúcar. Porém, não foi suficiente, segundo ele, para impactar de forma positiva na melhoria do preço do açúcar, já que os estoques continuavam elevados e em decorrência disso os preços caíram consideravelmente.

Com relação ao álcool, Márcio diz que “com a política de preço implantada pelo governo federal de atrelar o preço da gasolina ao preço do petróleo e o preço do etanol ao preço da gasolina, visto que há uma mistura de 25% de álcool na gasolina, houve considerável aumento de preço, mais ainda assim não houve impacto para o fornecedor tendo em vista os valores recebidos durante o ano”.

A esperança dos fornecedores, segundo Márcio, está no programa Renovabio que terá início em 2020, quando o etanol e os biocombustíveis passarão a ter participação na matriz energética do país. “Esse programa favorecerá tanto produtores como as usinas”, acredita.

Em razão disso, ele conta que a Aplacana vem reformando os canaviais ano a ano. “Todo ano reformamos cerca de 5 mil hectares na confiança do Renovabio e na esperança de que na safra que vai começar haja melhora de preço, principalmente do açúcar, já que a produção caiu nos últimos meses e os estoques vem diminuindo. Apesar disso, acreditamos que 2018 ainda não será um ano para se comemorar,  mas esperamos melhoras para a safra seguinte de modo que o produtor continue na atividade, porque se o preço não melhorar certamente os produtores começarão a partir para outras atividades, como já vem fazendo com o plantio de soja, milho e amendoim”, encerra.

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