Luiz Carlos Canheo: O relógio da parede

A tarde fecha-se em penumbra. O vento implacável balança os galhos das árvores das espécies sete copas e dos imensos ciprestes que ornamentam o jardim daquele imenso hospital. As folhas desprendidas das árvores entram pelas janelas e portas abertas, acomodando-se no piso ladrilhado do corredor.

Dentro da sala de espera, um casal impaciente aguarda a chegada do médico para atender sua filha que, em breve, entrará em trabalho de parto. Pelo corredor frio do hospital um jovem professor assustado, tenta enxugar sua face com um lenço já bastante úmido. O relógio da parede com seu tiquetaquear majestoso anuncia 18 horas. De meia em meia hora ele anuncia o horário cadenciado. O homem impaciente da sala, de quando em quando, sai a andar pelo corredor para atormentar o assustado professor. Exibe a coronha de seu revólver niquelado, que traz na cintura, sob a camisa, e repete sempre as mesmas palavras: “se algo acontecer à minha filha, descarrego este trinta e oito em você, seu asno”.

O relógio da parede anuncia dezenove horas, quebrando com suas badaladas inconfundíveis o silêncio que reina naquela Casa Santa. E a apreensão, agora pela ausência do médico, une todos os presentes, tanto acompanhantes quanto funcionários. Alguns alegam que o médico pode estar assistindo seu time jogar. Outros argumentam que pode estar visitando sua fazenda, pois o período da manhã tomara todo seu tempo com os pacientes. O pai da jovem parturiente irritado, vendo sua filha se contorcer de dor na mesa de cirurgia, grita alto que irá buscar o irresponsável onde estiver.

O relógio da parede anuncia dezenove e trinta, quando um ofegante cirurgião entra na sala de cirurgia, lavando as mãos e vestindo seu jaleco branco impecavelmente passado. Os ânimos são acalmados. A parturiente está divinamente preparada pela enfermeira, bem como todos os instrumentos necessários para a realização do parto estão à disposição do cirurgião. O jovem professor de geografia caminha, agora, mais tranquilo pelo corredor, pois sabe que sua aluna está sendo assistida por um médico competente. Seu pensamento volta-se para a primeira vez que adentrara aquela oitava série com trinta e cinco alunos, sendo vinte meninas moças e quinze rapazes. Parecia que houvera uma seleção. Todas muito bonitas. Passou a ser paquerado por algumas, mas não podia corresponder, pois se fazia necessário manter a disciplina da sala de aulas.  Eram quarenta aulas a título precário. Já se tornara professor da casa. Mas, dentre as vinte, tinha uma que mexia com sua cabeça. Ele também era jovem e não era de pedra. Neli era provocante. Trocara de lugar com a colega da primeira fila para poder chamar mais a atenção do professor. Com sua saia ultracurta cruzava as belas pernas, tirando-lhe o fôlego.

O relógio da parede anuncia vinte horas. O pai da parturiente continua pelo corredor como se estivesse em transe, a acariciar o cabo do revólver. E, em seu pensamento, o professor se vê em sala de aula, em dia de prova, quando a provocante aluna transcrevera a matéria da prova em suas coxas. O professor, alucinado por aquelas pernas tão belas,  procurava observar a classe do fundo da sala para não ter que agir como deveria com o aluno que fosse flagrado colando.

A notícia transmitida por um rádio ligado na portaria do hospital o desperta de seus pensamentos, pois anuncia que o exército chileno depusera o presidente constitucional Salvador Allende, assassinando-o sem piedade, assumindo em seu lugar, o general Augusto Pinochet. O pai de Neli em voz alta solta um impropério: “Foda-se o Chile, foda-se o general Pinochet, foda-se esse rádio da portaria, e você, professorzinho de merda, se algo acontecer a minha filhinha …”

E o relógio da parede anuncia vinte horas e trinta minutos, quando alguém traz a notícia de que o parto estava demorando, porque a criança estava atravessada no ventre da mãe. O professor recebe novas ameaças do pai alucinado. Foram tantas as ameaças de morte que recebera, porque não aguentara as provocações da jovem sedenta de amor e desejo que o levaram a sucumbir.

A notícia vinda da sala de cirurgia aturde seus sentidos. As pernas desconectam-se do cérebro e conduzem-no à capela do hospital. De joelhos, reza com devoção, pedindo aos santos do céu e aos anjos do senhor que salvem mãe e filho sem se importar em sujeitar-se aos desmandos do pai zangado.

Novamente no corredor, as pancadas do relógio entram no ritmo de seus passos : uma… a cola nas coxas… duas… a criança atravessada no ventre da mãe… três… a coronha niquelada do revólver do pai zangado… quatro… as ameaças… cinco… seu corpo dentro do caixão, a cabeça eternamente no travesseiro…seis… a testa amarelada, cor preferida dos  defuntos… sete… a expressão serena do rosto, pois nunca negara o ocorrido. Fizera bem feito. Responsável: o amor, o desejo… oito… os primeiros encontros em seu quarto de hotel… nove… a gravidez…

O silêncio do relógio permite a explosão de um choro forte… O médico anuncia que nascera um robusto menino, que mãe e filho estão bem e que era para entrar o professor, depois os pais da mais nova mãe.

Trinta dias após o nascimento da criança, o jovem professor com sua predileta aluna se casam e, em seguida, batizam o filho.

As mãos do avô, agor na altura do peito, aplaudem radiantes de felicidade.

O relógio anuncia doze horas.  Da matriz. 

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