João Francisco Neto: Pão e circo

Para distrair a atenção do povo dos graves problemas, os imperadores romanos promoviam espetáculos e combates entre gladiadores, realizados em arenas monumentais, das quais a mais famosa era o Coliseu, cujas ruínas ainda sobrevivem em Roma. Naqueles eventos públicos, os gladiadores (em geral, escravos) debatiam-se em lutas sanguinárias, perante uma plebe que regularmente recebia generosas porções de pão e trigo. Por isso, aquela “política” ficaria conhecida como panis et circenses (pão e circo, em latim).

Os imperadores sabiam muito bem que era necessário manter o povo sob diversão permanente – e de barriga cheia -, para anestesiar o seu ânimo e desviar a sua atenção das questões mais importantes. Em quase todas as províncias romanas havia arenas e treinamento para os gladiadores, que eram, enfim, as estrelas do show. Como os povos vencidos em guerra eram escravizados, não faltava “mão-de-obra”.

Mais de dois mil anos depois, lamentavelmente, muitos governantes ainda se valem da mesma estratégia romana para distrair a atenção do povo dos verdadeiros problemas que afetam o país. Aí estão as monumentais festas de carnaval, novelas, “reality shows” e outras tantas “manifestações culturais”, amplamente apoiadas por todas as esferas do governo (federal, estadual e municipal). 

A novidade, agora, é que se procura atrair mais a atenção dos jovens, para que deixem de pensar em promover mudanças. Por incrível que pareça, a internet, que pode ser uma fantástica fonte de informações, pode também ser um poderoso instrumento de alienação. Basta ver os milhões de jovens, absolutamente alheios a tudo e a todos, capturados pela tela dos seus smartphones. Vivem numa eterna bolha virtual.

No Brasil, os maiores exemplos da política do pão e circo são os eventos ligados aos esportes, com destaque para o futebol. Não é por outra razão que o Brasil fez de tudo para sediar os jogos da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.  Para isso, doze arenas monumentais – hoje, ociosas – foram erguidas, sabe-se lá Deus a que preço. O que se sabe é tudo recaiu sobre os cofres públicos, sem contar o que foi desviado pela corrupção.

Para mascarar a falência de uma administração inepta, os governantes lançam mão dessas políticas “sociais”. Não há muito tempo, na vizinha Venezuela, o governo Chávez notabilizou-se pela ampla aplicação desse tipo de medidas. Hoje, nem isso mais tem sido possível lá. É óbvio que, por aqui, já estamos fartos de ver os mais variados – e descarados – exemplos da política do pão e circo.

  Com o tempo, esses países, que se dizem democratas, pois realizam eleições, vão se transformando em verdadeiras “ineptocracias”, em que os menos capazes de governar são eleitos pelos menos capazes de escolher, tudo alimentado pela política do pão e circo. Aí se instala um círculo vicioso, que arrasta tudo para baixo.

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