João Francisco Neto: A classe do precariado

A partir da década de 1990, começou a aumentar o número de pessoas que, pelo mundo todo, passaram a viver em condições precárias de trabalho. Surgia, assim, uma nova classe de trabalhadores, marcados pela insegurança e pela imprevisibilidade em relação ao futuro, num mundo exposto às rápidas e constantes transformações. A essa nova “classe”, convencionou-se chamar de “precariado”, que seria o proletariado precarizado.

Isso começou com o avanço da globalização, da flexibilização da legislação e da liberalização dos mercados, tudo acelerado pelo progresso tecnológico trazido pela 4ª Revolução Industrial. A integração da China e dos países emergentes ao mercado de trabalho mundial adicionou uma oferta de milhões de trabalhadores baratos, que vieram engrossar as fileiras do chamado precariado.

Essa expressão popularizou-se a partir dos estudos realizados pelo economista inglês Guy Standing, que publicou em 2011 uma obra central sobre o assunto: “O Precariado: A Nova Classe Perigosa”.

O precariado está inserido nos ofícios degradantes e transitórios, como são os casos dos operadores de call centers, dos estágios mal remunerados, realizados a curto prazo e sem qualquer perspectiva de aspiração a uma carreira profissional, etc. São trabalhadores que vivem inseguros, à beira de um abismo, em situações desgastantes de subemprego, que provocam um aumento das doenças psicossociais, como a depressão.

A falência do mercado de trabalho tradicional gerou esse novo tipo de trabalhadores, que aceitam todas as exigências das empresas, como vendedores que são obrigados manter um sorriso permanente (e até o corpo em forma!); os eternos “estagiários”, que têm de se adaptar a qualquer tipo de trabalho, e por aí vai.

Além da perda de direitos, o trabalho precarizado implica a perda do sentido da vida. O emprego é mais do que um simples ganha-pão; é um espaço de reconhecimento social, um espelho em que podemos ver o nosso lugar na sociedade, nossos planos de vida para a família, etc.

O trabalho precarizado se vale de uma população trabalhadora excedente, que flutua de acordo a dinâmica dos investimentos capitalistas e da aceleração (ou a retração) do consumo. São trabalhadores que ora são atraídos, ora são repelidos, conforme os interesses do mercado.

As situações de crise aguda, como a que vivemos no Brasil, favorecem o aumento do número de trabalhadores que se submetem a essas condições. Esta é uma dura realidade que, longe de ser transitória, tende a aumentar.

A esta altura, alguém poderá perguntar por que razão as pessoas aceitam submeter-se a essas condições precárias de serviço. A resposta é simples: fazem isso porque existe algo pior do que o precariado, que é o desemprego.

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