Claudio Pimenta: Pisoteando o lucro

A excelente matéria de 17/02/18 (Pisoteando o Lucro) me faz lembrar a entrevista veiculada em 23/janeiro/2009 no mesmo semanário A Voz Regional.

Naquela oportunidade, já chamava a atenção a questão da produtividade agrícola da cana-de-açucar na região e era só o começo do pesadelo.

De lá para cá o problema se agravou e muito, como bem traz a matéria Pisoteando o Lucro, de 17/2 ultimo.

Os prejuízos acumulados não se resumem às perdas durante a colheita mecanizada da cana.

Na área agrícola, observamos também as perdas na redução da longevidade do canavial em decorrência dos danos causados à soqueira, alterando a relação de numero de cortes / plantio, bem como o aumento dos custos de transporte em razão da elevada quantidade de impureza transportada.

Já na área industrial, acontece um maior desgaste de equipamentos durante a safra em decorrência da elevada quantidade de impureza processada, implicando em maior custo de manutenção industrial, além do maior custo de movimentação na logística e destinação da impureza mineral com os resíduos industriais.

Na sociedade, em especial no que se refere à classe produtora, a menor produtividade gera crise de produção e faturamento. O menor faturamento gera crise financeira e consequentemente menor arrecadação. Menor arrecadação gera desequilíbrio sócio-econômico. Por conta disso, alguém discorda que em Monte Aprazível já vivemos essa terrível conseqüência?

Quando a matéria de 17/2 fala em “Entidades de Produtores estimularam a antecipação do fim das queimadas e a adoção da mecanização total”, vem à tona um caso conhecido e muito ligado à nossa realidade.

É o caso da ORPLANA sob a presidência de Ismael Perina Jr. A mesma ORPLANA ligada diretamente à APLACANA, que congrega a classe produtora na nossa região, muito bem representada na matéria de 17/2.

Consta que em meados de 2007, a ORPLANA sugeriu ao Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria de Agricultura, a antecipação do fim da queimada da palha da cana, que por sua vez já estava definido por Lei para acontecer em 2031, dando assim tempo suficiente para fornecedores de cana e usinas se adequarem, o que era coerente com a nossa realidade.

Utilizando-se da força das suas Associações, a ORPLANA acabou convencendo o Governo do Estado a promover a antecipação do fim da queima da palha na colheita da cana e com isso criou o tal do “Protocolo Ambiental”, com toda a pompa disfarçante que é usual para estas ocasiões. Uma decisão desastrosa em desfavor da classe produtora, mas muito interessante para outros atores, ainda invisíveis na ocasião, mas que o tempo se encarregou de revelar.

Isso ficou muito evidente na audiência pública promovida pelo STF (Superior Tribunal Federal) em Maio de 2013 para debater a questão das QUEIMADAS EM CANAVIAL, oportunidade em que foram convidadas dezenas de personalidades representantes de organizações de classes, como Associações de Produtores, Cooperativas, etc. A ORPLANA foi representada por Cristina Pacheco (ORPLANA e Associação dos Fornecedores de Capivari) e Ismael Perina Jr (ORPLANA).

Vale a pena assistir!  Incrivelmente, naquela audiência pública, uma única Entidade de Classe, a ORPLANA, foi representada por dois ocupantes da tribuna. Não foi difícil entender o porquê…

Era de se supor que os dois representantes fossem expor suas opiniões em favor da classe produtora em que representavam, mas não foi isso que aconteceu. Os dois representantes tiveram aproximadamente 05 minutos cada um para ocupar a tribuna da audiência publica no STF. A primeira a falar foi a Sra Cristina Pacheco. Disse em favor dos produtores e fornecedores entre outras argumentações, clara e objetivamente que “ENTÃO, QUEM ESTÁ GANHANDO MUITO DINHEIRO COM ISSO SÃO ESSAS DUAS GRANDES FÁBRICAS DE MÁQUINAS, E OS PRODUTORES ESTÃO CADA VEZ MAIS POBRES E OBRIGADOS A SAIR DA PRODUÇÃO. COM ISSO VÊ-SE UMA REFORMA AGRÁRIA AO CONTRÁRIO ACONTECENDO”. Foram estas as palavras da Sra Cristina Pacheco. Quando observamos a situação em que o setor vive nos dias de hoje, concluímos que ela estava certíssima e representava de fato os interesses dos seus associados.

Muito bem. E o outro representante da ORPLANA, o que teria dito na audiência pública no STF, logo após a fala da Sra Cristina?  O que se viu, vergonhosamente foi uma explanação totalmente contraditória em relação às colocações da primeira representante. Parecia que ali estava um representante dos fabricantes a que a Sra Cristina mencionou (para não dizer que a Sra Cristina denunciou…). Uma verdadeira contradição entre os pontos de vista dos representantes da ORPLANA, que deveriam estar alinhados em defesa dos seus representados! Mas definitivamente não era essa a situação. Vale apena assistir!  Recomendo!

Por fim, quando a matéria de 17/2 do jornal A Voz Regional informa que “alguns dirigentes de entidades de fornecedores tem familiares como proprietários de revenda”, está corretíssima a informação e vai diretamente de encontro com o que disse a Sra Cristina Pacheco na audiência pública no STF.

O caso mais emblemático dessa promíscua relação está intimamente ligado à nossa região. Não por acaso, devemos lembrar que em Maio/2008 (justamente no mesmo período em foi criado o Protocolo Ambiental em desfavor da classe produtora, obrigando todos a mecanizar a colheita da cana sem estarem devidamente preparados para isso), acontecia na nossa região a transferência fraudulenta da concessão John Deere da AGROLEP para uma tal Itaeté.

Digo “fraudulentamente” porque depois de 07 anos de batalha judicial, está comprovado que a documentação utilizada de escudo nesse triste acontecimento foi emitida pela Junta Comercial do Estado de São Paulo e não passava de uma fraude, com detalhes de falsificação de assinatura, inclusive.

Sabe-se que a Itaeté pertence à família de Ismael Perina Jr, que na condição de então Presidente da ORPLANA fez a infeliz sugestão ao Governo do Estado, seguida de campanha e aprovação.

Faz todo sentido a advertência (que agora até se confunde com denúncia) contida na manifestação da Sra Cristina Pacheco durante audiência pública no STF…

Sinceramente, como esse Brasil está carente de dirigentes honestos!

 

Antonio Claudio Leal Pimenta

Engº de Produção Mecânica, RC – AGROLEP

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