João Paulo Rillo: Por voto conservador, Alckmin avalisa atentado

Usar uma expressão de origem bíblica para justificar violência não é recurso inédito na história do marketing da extrema direita.

Diante do atentado a tiros sofrido pela caravana do Lula, seu adversário político, o ultracatólico Alckmin apostou na tática e declarou:” está colhendo o que plantou “(“Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará”, Gálatas 6:7).

A repercussão foi negativa e o governador tentou voltar atrás. Mas a lambança estava feita.

Mais do que revelar o caráter diminuto do homem que a proferiu, a declaração mostra a trapalhada de um político que, após décadas no poder, descobre-se sem discurso, sem programa e, segundo as pesquisas, sem eleitores.

Nem corações, nem mentes: Alckmin é um encouraçado sem rumo no qual ninguém embarca. E que, de repente, se vê tendo que falar a língua dos extremistas que ele mesmo ajudou a criar, correndo atrás de votos com perfil de Jair Bolsonaro.

A fala é tão nonsense que sequer resiste ao primeiro teste: o que mereceria, então, alguém que semeia como Alckmin?

Ele deve achar, por exemplo, que os policiais estão colhendo o que plantam com o aumento de 40% na morte de policiais militares no Estado em apenas um ano. Por isso não investe.

Que um cidadão que decide entrar na polícia civil, onde há um déficit de 12 mil policiais, diante da precariedade das condições de trabalho, está apenas colhendo o que plantou.

O que merece alguém que investe abaixo do mínimo constitucional em Educação, paga professores abaixo do piso, paga funcionários menos do que o salário mínimo, fecha delegacias, escolas, salas de aula, obriga crianças a comerem merenda enlatada com altos índices de sódio, gordura e conservante? Isso quando tem!

O que merece colher? Certamente, não a Presidência do Brasil.

Governador do maior e mais rico Estado do Brasil, postulante à Presidência desde 2006, Geraldo Alckmin nunca se interessou em construir um programa nacional. Ou não foi capaz. É o paradoxo do liberal: como posso ter um projeto de Estado quando meu projeto é eliminar o Estado?

A resposta da direita este ano parece estar não no conservadorismo econômico dos liberais e, sim, no perigoso conservadorismo da moral.

Assim, o homem que acumula sob si a maior máquina eleitoral do país, aparelhada por gerações e blindada por todos os lados, decide tentar tirar da cartola um discurso apolítico e perigoso, com mais pinta de rede social do que de República.

Muito se fala de uma crise na esquerda.

Mas a verdade é que a direita brasileira, ao implodir a democracia e as instituições republicanas, alimentou alguns monstros que, crescidos, não se contentam mais com os restos de seus donos.

Com experiência em ser devorado pelas próprias criaturas, o Dr. Frankenstein paulista chega a 2018 trocando os pés pelas mãos e mostrando que está disposto a tudo, até a ser avalista de atentado.

Enquanto Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila sobem ao palanque com Lula em defesa da democracia, do outro lado do rio o cenário é de terra arrasada.

Para quem leva a política a sério, é triste e preocupante ver o governador de São Paulo jogando ossos para a cadela do fascismo em busca de voto.

Espero que sua caminhada seja interrompida em breve; não por um tiro, mas pelo voto popular.

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