João Francisco Neto: O Darwinismo social

A partir da segunda metade do século 19, os países europeus mais industrializados lançaram-se a uma audaciosa empreitada contra nações da África e da Ásia, em busca de novos mercados consumidores e da exploração de matérias-primas baratas. Essa investida imperialista ficaria conhecida como o “neocolonialismo”, que logo teria a adesão dos Estados Unidos e do Japão. Eram ações imperialistas, que resultavam na dominação política e econômica desses países mais pobres, facilitando a sua exploração e o avanço do capitalismo.

Entretanto, havia um problema de ordem moral, para não dizer legal: como legitimar essas ações violentas contra países indefesos, sem que houvesse guerra ou qualquer outro tipo de agressão que as justificasse? Ocorre que, em 1859, o naturalista inglês Charles Darwin, depois de anos de pesquisa ao redor do mundo, publicaria uma obra capital: “A Origem das Espécies e a Seleção Natural”, que provoca polêmicas até os dias de hoje.

Com esse livro, Darwin lançaria as bases da chamada “teoria da evolução”, indicando que o homem, como as demais espécies, era resultado da evolução e mutação de outras espécies, que, ao longo dos tempos, iam sofrendo alterações e adaptações, por meio da seleção natural que ocorre no ambiente da natureza.

A partir daí, alguns intelectuais e “cientistas” aproveitaram-se dos conceitos de Darwin para fazer uma série de deduções, tais como: a) a sociedade é como um organismo vivo, que, com o passar do tempo, pode evoluir e melhorar; b) essa seleção teria criado “raças mais favorecidas pela natureza”, no caso, o homem branco europeu; c) essas “raças mais evoluídas”, na verdade, praticariam então uma ação benéfica ao interagir com as raças mais “primitivas”. 

Por meio dessas distorções toscas e racistas, ergueu-se então o edifício do “darwinismo social”, que seria a tese legitimadora de todas as ações imperialistas desfechadas contra os países mais pobres. Nos Estados Unidos, o darwinismo social foi a força que sustentou grande parte do massacre promovido contra as populações indígenas, para a ocupação de suas terras.

O fato é que se criou um forte vínculo entre o darwinismo social e o racismo “científico”, tudo para justificar a suposta existência de “raças superiores”, que, por isso, teriam o direito de dominar as “inferiores” (o mais pobres). Toda essa mistificação teórica rapidamente caiu no agrado das grandes potências europeias, que, em conjunto com os Estados Unidos e o Japão, logo passaram a agir com bastante desenvoltura contra os ditos povos “inferiores”.

Com o final da 2ª Guerra Mundial, o darwinismo social foi cedendo espaço às novas concepções democráticas. Porém, a partir da década de 1980, as teorias neoliberalistas, contrárias à intervenção do Estado para corrigir as desigualdades sociais, deram um fôlego renovado ao darwinismo social. Embora atenuado – e até disfarçado -, o darwinismo social sobrevive e encontra-se profundamente arraigado no seio da sociedade, num pensamento que muitos consideram absolutamente normal, e que pode ser resumindo no seguinte: só os mais fortes sobreviverão, num mundo altamente competitivo.

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