Quando o patrão ganha menos que o empregado

Na maioria dos pequenos negócios, os donos não pode ter salário senão fica sem capital de giro e sem investir na loja

Pequenos e micros empresários só conseguem retirar do negócio o suficiente para cobrir suas despesas pessoais básicas, em última análise, se tornaram uma espécie de operário patrão. Eles dizem que trabalham para sobreviver e que se não for assim ficam sem capital de giro e dinheiro para investir no empreendimento. Aos bancos, jamais recorrem. Mesmo com a queda nas taxas de juros em 60% nos três anos, os atuais 6.5% cobrados nos financiamentos oficiais, asfixiam de vez qualquer pequeno negócio. 

Adriana Aparecida Alves, proprietária da loja de roupas e acessórios Alecrim Dourado, diz que os custos fixos do seu negócio representam cerca de 50% do faturamento da loja. Por conta disso e por ter um segundo trabalho em um escritório de advocacia, ela nunca fez retirada nesses três anos em que possui o empreendimento. Ela conta que com o faturamento paga os custos fixos e o restante emprega para repor e ampliar o estoque. Ela conta que foi orientada por um consultor financeiro a agir dessa forma no início e que tem dado certo. “Agora mesmo vou pintar a loja e já consegui ampliar bastante meu estoque”, diz entusiasmada.

Adriana também não recorreu a empréstimos para empreender. “Como tenho um segundo emprego nunca recorrei a financiamento. Caso contrário teria de fazê-lo para expandir a loja”.

A maior dificuldade de Adriana em manter as despesas correntes e investimento na loja é a inadimplência. “A gente faz a venda com o parcelamento de acordo com as condições do cliente, mas ela deixa de pagar o que nos obriga a renegociar a dívida com um prazo maior que o inicialmente dado. Isso compromete o orçamento do negócio”,

Jesus dos Santos Pereira, proprietário da sorveteria Palácio dos Sabores, diz que os custos fixos do negócio com aluguel, energia, água, escritório, impostos salário de funcionários e encargos, entre outras despesas representa entre 65% a 70% do seu faturamento. “Meu lucro é mais ou menos 30% a 35%. Por isso, primeiro eu pago todas as contas, o que sobra é para meus gastos pessoais e para guardar para futuros investimentos. Na maioria dos meses eu trabalho cerca de 18 dias para pagar conta e o negócio só dá lucro porque eu fabrico os sorvetes, conseguindo assim vender mais barato. Se fosse revender acho que não daria lucro”, comenta.

Ele conta que nunca recorreu a empréstimos para investir no negócio. “Comecei expandindo aos poucos, guardando dinheiro e comprando tudo à vista, nada a prazo, porque assim a gente consegue negociar um preço melhor dos produtos e equipamentos”, diz.

A maior dificuldade de Jesus em bancar as despesas correntes e investimentos no negócio é, segundo conta, o frio e a chuva. “No calor eu tenho que vender e guardar para o frio, porque no inverno as vendas caem em cerca de 50%”.

Fernanda Aparecida Justi Barrivieri, proprietária da loja de brinquedos e papelaria Shop 26, diz que não paga aluguel porque o negócio funciona em prédio anexo à sua casa e não tem funcionários. Por isso, os custos fixos dela com internet, telefone, água e energia consomem cerca de 20% do faturamento.

Como o movimento oscila de um mês a outro, ela diz que dá prioridade para manter o capital de giro da loja, “tirando para mim apenas o necessário para as despesas pessoais. Não dá para fazer um salário fixo mensal, porque se tirar o dinheiro dela o capital de giro acaba”.

Fernanda também nunca recorreu a empréstimos para investir no negócio por acreditar que não honraria o financiamento devido aos juros e inadimplência. “A gente vende contando que vai receber aquele produto para repor e tirar uma margem para os custos e lucro, mas a pessoas não paga e a gente perde o produto e tem que fazer a reposição da mercadoria. Isso descapitaliza o nosso giro”, comenta.

O cabeleireiro Lamartine Orsati trabalha sozinho em seu salão. Por isso, diz que seus custos com aluguel, água e energia representam cerca de 40% do faturamento. “Consigo ter remuneração, graças a Deus eu vivo muito bem, mas da minha retirada eu vou guardando para fazer investimentos no salão, como a compra de equipamentos e pintura do prédio”.

Lamartine também nunca recorreu a financiamentos. Diz que se tiver que recorrer prefere fechar o salão, “porque os juros são altos e consomem todo o faturamento”.

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