Monocultura da cana está cobrando agora preço muito alto dos produtores rurais

Produtores estão sem dinheiro para investir, com o patrimônio em risco, e aprofundam a crise no comércio e serviços

Os produtores rurais da região estão com a corda no pescoço e num círculo vicioso em que a falta de dinheiro para os tratos culturais derruba a produtividade comprometendo a cada ano a renda e o seu patrimônio, podendo até perdê-lo. É o modelo da monocultura canavieira que se instalou na região nos últimos 20 anos que parece ter se esgotado e Monte Aprazível, o município pioneiro na atividade, parece ser o que mais sofre nesta crise que, como as lideranças do setor reconhecem, só acaba com a diversificação de culturas

Monocultura

Juliano Goulart Maset, presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Região de Monte Aprazível (Aplacana), diz que o maior problema atualmente é a crise no setor que afeta usineiros e de forma direta o produtor, seja no preço e até nas condições de pagamento. “Isso não é um problema localizado, mas atinge o setor de uma forma geral. Tanto que tem grandes unidades, como a Bunge de Orindiuva sendo vendida”, conta.

Segundo ele, os produtores de algumas unidades têm créditos a receber das usinas. “A parcela de 20% do total da cana entregue em 2017, deveria ter sido paga em 22 de dezembro do ano passado e até agora ainda não foi, o que fez com que parte dos produtores rurais que tiveram seus custeios vencidos não os pagassem e fossem obrigados a renová-los com juros acima do juro agrícola para poder saldar suas contas”.

O problema, segundo Juliano, é que dos municípios do entorno de Monte Aprazível 80% são canavieiros e sem essa remuneração, “tanto com preço baixo quanto indefinição na data de pagamento”, os produtores não conseguem renovar suas lavouras e nem investir na sua manutenção, impactando o comércio dessas localidades. É, segundo ele, “um efeito cascata, porque o fornecedor além de não girar o dinheiro nos municípios, tem sua produção diminuída em cerca de 50%, diminuindo assim o fluxo de seu faturamento e correndo sério risco de endividamento”.

Juliano diz que o pacto realizado entre a diretoria da Aplacana e a administração da unidade industrial de pagar 50% dos 20% devidos em abril e o restante em 15 de maio, deve amenizar a questão, mas o que preocupa é que “a crise do setor sucroalcooleiro que começou em 2006 vem perdurando, tendo apresentado pequena recuperação na safra de 2015/2016, mas voltando a se intensificar”.

Juliano diz que esse é o preço que a região está pagando por ser monocultora, “o que não é interessante, porque uma vez em crise não há como diversificar os rendimentos”. Mas ele diz que justamente em função da crise, tem percebido que vários produtores têm migrado para outras culturas como o amendoim, soja, milho, seringueira e gado.

Desalento geral

Diogo Martins Arruda, presidente do Sindicato Rural Patronal de Monte Aprazível, diz que o agronegócio está ruim para o produtor, “seja na cana, seringueira, leite, soja, enfim, o agronegócio, embora seja o que tem sustentado a economia do Brasil, está passando uma fase muito difícil. Quem produz não obtém preço justo pelo produto que tem um alto custo de produção e o atravessador é que ganha muito”, enfatiza.

De acordo com ele, para produzir a cana os gastos com insumos e plantio sobem a cada ano e o preço do produto não acompanha nem a inflação do período. “Para produzir o leite está péssimo porque os insumos, rações, mão de obra estão caros e o preço do leite está baixo demais. Não vale a pena. Não existe atividade em que o preço do produto acompanhe o preço dos insumos”.

Isso, segundo Diogo, tem descapitalizado o produtor rural. “A desproporção entre o custo de produção e o custo do produto é muito grande, a ponto de comprometer o patrimônio do produtor. Hoje, para fazer um financiamento, o produtor tem que dar a propriedade em garantia e se tiver um imprevisto na produção ele perde tudo. O produtor está desamparado e isso porque a produção agrícola é que está tocando o país”.

Por isso, Diogo acredita que sejam necessárias medidas governamentais para solucionar o problema e aponta a garantia de preço mínimo e juros de no máximo 2% ao ano como as principais a serem tomadas”.

Assim como Juliano, Diogo também enfatiza que a monocultura não é sadia para a região. O ideal, segundo ele, é que houvesse diversidade entre cana, leite, soja, amendoim e seringueira. “Se todas essas culturas existirem ao mesmo tempo e forem bem remuneradas não teria problema algum”, finaliza.

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