A história de vida de Willian, que agora luta contra a morte

Quando a tragédia de uma tentativa de latrocínio revela a grandeza de sentimentos de um gigante em meiguice

 

A tentativa de latrocínio sofrida pelo ex-aluno da Apae Willian Cleber Venâncio, de 37 anos, na madrugada do dia 4, comoveu Monte Aprazível. Willian foi esfaqueado no abdome e peito ao reagir a um  assalto em que um usuário de drogas tentou roubar-lhe um aparelho de celular. Levado para a Santa Casa, onde recebeu os primeiros cuidados e no dia seguinte, ao ter o estado de saúde agravado, foi transferido para o Hospital de Base, onde se encontra na UTI, em estado gravíssimo. Diabético, com septicemia (infecção severa), os médicos têm dificuldade em manter estável o quadro do paciente, mas são auxiliados por uma rede de orações que quer Willian vivo a qualquer custo.

Willian é figura popular na cidade e muito querido da população.  Além do Benefício de Prestação Continuada pago a portadores de deficiência, Willian  ganha a vida vendendo sorvetes e material reciclado. Ele é um gigante de quase dois metros de força bruta, por isso, tem resistido à septicemia, e mais de cem quilos de meiguice, a que ninguém  resiste.

Ele é “rei” na quadra final da Rua Monteiro Lobato. Uma moradora da quadra e muito próxima de Willian, que preferiu não se identificar, diz que ele frequenta a casa de todo mundo no quarteirão, come cada dia na casa de um e convive diariamente com as pessoas da quadra. “Tem pessoas que guardam latinhas e papelão para ele”.

Ela diz que Willian “sempre foi um menino alegre, brincalhão, educado e com grande facilidade de fazer amizades. Mas é inquieto, não gosta de ficar parado. Tá sempre fazendo as coisinhas dele, catando latinhas, papelão, plástico, vendendo sorvetes”. Ela conta que ele sempre teve medo de agulha e que os amigos da Monteiro Lobato, preocupados com sua saúde, empreenderam uma jornada para o convencer a fazer exames. “O resultado apontou para uma diabetes alta e a partir daí ele passou a se alimentar na minha casa, da minha mãe, da minha tia, e de outras pessoas da quadra para ter uma alimentação mais balanceada, porque se depender dele passa a cachorro quente, lanche, churrasco e refrigerante, que é o que ele gosta”, conta.

Outra característica do Willian, segundo ela, é comer em grandes quantidades. “Ele gosta de comer bastante e em bacia. Não se contenta com pouco. Ele não tem regra. Se você der uma caixa de leite ele consome em dois dias”.

Willian é “uma pessoas maravilhosa”. Segundo ela, é dócil, inocente, não perturba. “Nunca fez mal a ninguém, nunca roubou, nem passou ninguém para trás. As pessoas gostam dele de verdade – enfatiza – apesar de ser especial ele é muito esperto, até certo ponto conhece dinheiro, sabe dar o troco do sorvete certinho. Apesar de não enxergar direito ele se vira muito bem”.

Ela considera o acidente uma fatalidade. “O motivo de tudo foi a necessidade de uma pessoa que vive no mundo das drogas, numa crise de abstinência, roubar o celular dele para vender e se drogar. Ele viu no celular a possibilidade de obter o entorpecente e acreditou que na sua inocência o Willian o entregaria, mas ele não entregou, porque o celular é a paixão do Willian, ele participa de vários grupos de Whats App. Fizeram até um facebook para ele. Ele é antenado”.

Willian é tão querido que as famílias que convivem intimamente com ele não medem esforços para levarem-no para passear. Recentemente, ele compareceu no casamento da filha de um amigo e o fez de acordo com a ocasião: de paletó e gravata.

Na casa de Oraldo de Carvalho Junior, no lado oposto da cidade, Willian também é amado. Oraldo estima que tem amizade com Willian há de 24 anos, “desde quando ele era moleque. Para se ter uma ideia ele me chama de pai. Ele passa aqui em casa toda semana, vem almoçar, fica aqui com a gente, bate papo, conta as histórias das festas aonde vai, ele é de dentro de casa. Para nós, esse acidente foi um choque, a gente fica sem saber o que fazer”, diz emocionado.

Oraldo diz que Willian é alegre, brincalhão, dócil, meigo, obediente, humilde, carismático e trabalhador. “Mesmo sendo especial sempre trabalhou vendendo latinhas, sorvete, verduras. Sempre ganhou seu dinheirinho na honestidade, ele se preocupa em pagar o que deve. Ele realmente é especial. Tem uma enorme alegria em viver”.

Ele é tão querido pela família de Oraldo que participa de todas as festas da casa. “Ele costuma passar o Réveillon conosco”, diz. Willian também participou do casamento de Oraldo Neto, filho de Oraldo, onde foi convidado de honra e no qual compareceu também de terno de gravata. “Ele foi chique e reclamou que não tinha Cotuba”, lembra com graça.

O amor de Oraldo por ele é tão grande que até fez uma promessa para salvar a vida de Willian. “Não é meu filho biológico, mas é meu filho do coração. Eu acredito que Deus vai salvar ele. Fiz até uma promessa. A gente não merece ficar sem ele”.

Vera Nilce Regiani Pereira, diretora da Apae de Monte Aprazível, diz que Willian chegou na escola aos 7 anos levado pela mãe Maria Barbosa Venâncio, que o protegia e cuidava. Por volta dos 14 para 15 anos ficou órfão de mãe e mesmo assim Vera conta que “ele se manteve no caminho certo, com bom coração, responsável e atencioso. Ele nunca deu trabalho na escola. Pelo contrário, sempre foi educado, alegre e brincalhão. Sempre respeitou a crianças menores e os professores”.

Mesmo não frequentando a escola há anos, Willian matem vínculo com a Apae. Vera diz que “a gente dá apoio, porque os nossos assistidos criam vínculo com a escola. Ele passa regularmente na escola, faz as refeições, comenta as novidades, fala do trabalho dele”.

Vera diz que Willian sofre de déficit intelectual, “ele tem facilidade para atender ordens simples, mas tem atenção e concentração diminuídas e características impulsivas. Apresenta também sério comprometimento no campo visual, o que dificulta a realização de algumas atividades”.

Vera lembra de algumas passagens interessante de Willian. “Quando eu o levei na praia em Santos ele viu oportunidade de trabalho. Ficou deslumbrado com tanta latinha. Ele é um menino do bem, que só pensa no bem”, enfatiza.

Sílvia Helena Ramos de Souza é cozinheira da Apae e diz que acabou por deseducá-lo, uma vez que ele foi educado para comer em prato, com garfo e faca. “Mas ele diz que gosta de comer na bacia e com colher e eu como o tenho como a um filho acabo fazendo as vontades dele sempre quando ele vem na escola”, conta.

Ela diz que quando passa na escola para fazer as refeições sempre pergunta o que terá de lanche. “Se for arroz doce eu tenho que guardar para ele, porque ele adora e depois volta na escola para comer mais tarde ou no dia seguinte. Ele é uma figura adorável”, encerra.

Desde o último dia 4, quando sofreu o atentado, Willian permanece internado. Depois de uma rápida passagem pela Santa Casa de Monte Aprazível ele foi encaminhado para o Hospital de Base de Rio Preto, onde permanece na UTI. Seu quadro inspira cuidados uma vez que os médicos estão com dificuldade de controlar a diabete e a septicemia causada pela perfuração do intestino.

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