Crise no setor alcooleiro chega ao fundo do poço: falta cana e safra acaba mais cedo

Trabalhador que não perder emprego vai receber menos, preço da cana esta mais baixo e produtor reduziu plantio

 

À medida que a colheita de cana avança fica mais evidente o agravamento da crise financeira que vive o setor e que tem reflexos nocivos na economia do município, atingindo comércio e prestação de serviços. Segundo o presidente da Associação de Plantadores de Cana da Região de Monte Aprazível (Aplacana), Juliano Maset, o fim da moagem deve ser antecipado para outubro em virtude da baixa produtividade nas lavouras e da falta de matéria prima. A antecipação do final da safra acarreta a dispensa de trabalhadores envolvidos na colheita encolhendo ainda mais a massa salarial, já que os trabalhadores da produção nas fábricas (Coplasa e Moreno) estão com salários menores desde de o início do ano, quando foram retirados benefícios previstos pela Reforma Trabalhista e redução das horas extras..

Ele conta que este ano, com a baixa produtividade, vai faltar cana nas usinas. “Tá faltando cana em nível de Brasil. A previsão nacional era de 593 milhões de toneladas, a projeção inicial foi de cair para 550 milhões e a estimativa é que fique em  537 milhões”, diz.

As usinas Moreno e Coplasa, têm, segundo Juliano, capacidade para esmagar 8 milhões de toneladas  mas devem moer algo abaixo de seis milhões. Geralmente, a safra se encerra na véspera de Natal, mas a cada ano fica mais curta. “Em 2017 as usinas já pararam antes por falta de matéria prima, em novembro, agora termina mais cedo ainda, o que é preocupante”, enfatiza.

Os reflexos da baixa produtividade e falta de matéria prima incidem diretamente no desemprego e na renda dos trabalhadores envolvidos na atividade. Juliano conta que tanto Moreno como Coplasa enxugaram o quadro de funcionários, reduziram os benefícios salariais que engrossavam a massa salarial de trabalhadores, de modo a tentar driblar a crise que o setor vem atravessando. “Será mais um ano em que os trabalhadores que forem dispensados terão que fazer bicos e trabalhar na informalidade para sobreviver e aqueles que permanecerão empregados terão que se manter com o salário abaixo do recebido em safras anteriores.”

Juliano diz que o setor se encontra sem saída. “Embora o quilo de ATR tenha começado com preço muito abaixo do esperado (R$ 0,5671) acredita-se que esse valor ficará acima no fechamento final, uma vez que o petróleo teve o maior aumento desde 2014, o que deve influenciar no preço do etanol. Mas, por outro lado,o preço da colheita se encontra numa situação insustentável devido ao aumento do diesel.”

Roça e comércio

Neste quadro, sofrem os setores econômicos regionais do comércio e prestação de serviço e, mais uma vez, os produtores rurais. Diante das perdas de renda com a baixa produtividade, o problema se aprofunda, pois o produtor está reduzindo a área plantada. Foi o que fez. Fábio Miguel, um dos maiores produtores e que atua também no segmento de corte, carregamento e transporte. Ele está diminuindo a área plantada em cerca de 30%, de 7 mil hectares para 5 mil hectares.

Fábio conta que sua produtividade está 8,06% menor nos melhores talhões e deve fechar a safra com redução de 10% a 15%.  A média ideal, segundo ele, é de 85 a 100 toneladas por hectare. “A minha está ficando em torno de 73 a 75 toneladas por hectare”, conta.

Ele diz que não é só a baixa produtividade a afetar a renda do produtor, mas também o baixo preço. “Estamos com uma queda de 10% em relação à safra passada e de 20% em relação à safra 2016, fator causado pela queda abrupta do açúcar no mercado internacional decorrente de aumento de produção mundial de açúcar”. Ele aponta ainda  o “desenho da tempestade perfeita”: o aumento dos combustíveis. “Se por um lado beneficia o etanol que acompanha o preço da gasolina, por outro aumenta drasticamente o custo com o diesel, que teve um aumento de R$ 1,00 por litro nos últimos 12 meses, fato que afeta diretamente os produtores e as usinas e que agrava muito a situação.”

Esses fatores, segundo Fábio, deixam o setor apreensivo com o futuro da atividade.. “Isso muito provavelmente implicará no aumento de usinas que não conseguirão honrar seus compromissos e na diminuição drástica de investimentos tanto no campo como na indústria.

Nesse cenário, as lavouras envelhecem sem investimentos, baixando a produtividade média a patamares que inviabilizam a atividade. “São índices de produtividade média insustentáveis, de 50 a 60 toneladas/hectares, ou menos.” Fábio só vê uma saída: o aperfeiçoamento de novas técnicas como seleção e tratamento de mudas, diversificação com manejo de soja ou amendoim nas áreas de reforma, controle de pragas, adubações mais modernas, ou seja,  colocando mais dinheiro na atividade, o que está difícil porque ninguém tem dinheiro”.

O problema, segundo ele, é muito sério. “Atualmente existem muitas usinas em dificuldade, principalmente na região. Isso tem impactado muito no ânimo dos produtores e das usinas. É um balde de água fria, porque nos longos anos que estou na atividade, sempre que havia baixa produtividade havia compensação no preço do produto, agora está havendo queda de produtividade, aumento do custo de produção e o preço está baixo”, queixa-se.

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