Elcio C. Padovez: Quantas Rússias existem em 2018?

Ao sediar sua primeira Copa do Mundo, o país continente, de 17 milhões de km2, encanta e assusta com sua cultura única e seus símbolos centenários, que deverão ser as atrações, já que a seleção local não inspira muita confiança

Como um brasileiro, que vai desembarcar em uma das cidades-sede da próxima Copa do Mundo, na Rússia, pode decifrar este país enigmático, que se espalha por um terreno duas vezes o tamanho do Brasil, com 11 fuso-horários, 100 povos diferentes e cerca de 200 idiomas falados da porção europeia, onde vai rolar Mundial, ao extremo asiático? Não decifra, mas pode aprender e entender melhor a cultura e o pensamento dos russos, e evitar apuros.

Um primeiro ponto fundamental a se destacar é que um bom russo não tem 100% do que ele é. Há pelo menos três grandes grupos ideológicos que disputam o título de a cara da nação: os ocidentalistas, surgidos com as reformas pró-ocidente que o czar Pedro, o Grande, desceu goela abaixo de uma Rússia para ele “atrasada” e apegada às superstições e à vida agrária. No século XVIII, ele ordenou a construção de São Petersburgo, a “Janela para o Ocidente” e a taxou até o urso da barba e roupas típicas e obrigou a nobreza a se vestir e a falar à moda de Paris.

Em contradição a este grupo, os eslavófilos, a partir de 1836, com a carta filosófica de Piotr Chadaeev, vão dizer que a Rússia deve manter suas raízes e costumes longe do modelo europeu, e viver de acordo com suas tradições eslavas. Já a partir do Séc. XX, os eurasianistas vão defender que a Rússia é um país único na terra, que dialoga e bebe das referências tanto do Ocidente quanto do Oriente, e este é seu charme e destino.

Os símbolos cruzam os séculos e estão até no futebol

A cultura russa e seu caldeirão possuem alguns símbolos que estarão muito vivos e presentes para onde você olhar na Copa do Mundo. Dois exemplos são a águia de duas cabeças, que está no brasão do país, e se multiplica desde a bandeira e a camisa da seleção nacional, ao álbum de figurinhas, site oficial do torneio e até as fachadas de estádios, como o de Ecaterimburgo. Nas negociações com a FIFA na remodelação de alguns estádios, os russos bateram o pé que tanto a fachada do estádio central, inaugurado em 1927, quanto o Lujniki e seu Lênin, instalado lá nos anos 1950 e imponente na entrada, não sofreriam nenhum tipo de alteração arquitetônica. Bem diferente da remodelação de desmanche do Maracanã.

Esta águia, chamada de bicéfala, foi herdada do Império Romano, e reza a lenda, que após a queda de Constantinopla, em 1453, Moscou seria a terceira Roma, e que por sua localização e vocação de grandeza, não poderia desgrudar seus olhos nem do Ocidente nem do Oriente.

O vermelho russo ou vinho, que nunca sai de moda por lá, e já foi o tom favorito dos czares, dos soviéticos e também, dos governos contemporâneos, como o de Vladimir Putin, também tingem as glorias e tradições da seleção de futebol de lá. Em 2018, o uniforme um dos russos, que abrem a Copa nesta sexta, diante da Arábia Saudita, é uma releitura do que os soviéticos usavam e que os trouxe tanto respeito no mundo da bola, algo difícil que o time atual pode sonhar, e se passar de fase no grupo 1, que conta, além dos saudistas, os uruguaios com Suarez e Cavani, e o Egito, com Salah, já é algo a celebrar. Em 2014 e 2002, os últimos mundiais dos russos, não houve tinta vermelha que desse jeito em campanhas fracas e de primeira fase.

Em nome do pai e da sociedade hétero

O maior desafio de se entender a Rússia atual é maior do que as 33 letras do alfabeto cirílico, que juntas, parecem intransponíveis para nós. A cultura russa, para se ter uma ideia mais clara, já começa no sangue e de sua origem biológica. Se você é filho de pai e mãe russo, então você é um ruskii e deve zelar por este sangue puro. Já o rossyanin não é filho ou filha de um casal russo, mas nasceu ou se criou por lá. Segundo o professor de História Russa da USP, Angelo Segrillo, o direito ao sangue eterniza as diferenças étnicas no país, e faz com que haja dezenas de nacionalidades há séculos e que mantém suas próprias culturas distintas.

Na Rússia, seu pai te transmite o nome patronímico dele, e faz com que esta referência, o nome patronímico, que é de quem é seu pai, te acompanhe por onde você for. Do patronímico, se desdobra também a figura do patriarca e do patriarcado, que regem as leis da igreja, da família e do Estado até hoje. Este reflexo mais conservador, que nas ruas refletes em casais heterossexuais não sejam dados muito a carícias públicas, explica por que a esmagadora maioria da população de cerca de 140 milhões de russos, de acordo com o censo local de 2011, não simpatize ou repudie a ideia da homossexualidade.

Desde 2013, vigora no país a lei anti propaganda gay, que proíbe qualquer veiculação de propaganda homossexual, com a justificativa que é perigoso para a formação das crianças russas. Moscou também baniu, pelos 100 próximos anos, a realização de paradas LGBT, e quem tentar se manifestar atenta contra o Estado. A FIFA, que tem entre suas bandeiras a inclusão, já anunciou que dentro dos 12 estádios, será permitido e assegurado o uso de símbolos gays, mas sem mensagens políticas.

O global, mais uma vez na Rússia, vai bater de frente com o local, assim que a bola rolar, e o mundo ficar de olho durante os próximos dias neste país, que como os irmãos Karamov, obra-prima de Dostoievski, tem em seu DNA complexo um pouco da superstição ortodoxa de Alexei, a cultura refinada de Ivan e a força bruta, machista e da disciplina militar Dmitricada um misturado na loucura continental do pai Fiódor.

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