João Francisco Neto: O Centrão

A proximidade das eleições gerais trouxe à tona a silenciosa, mas sempre permanente atuação do “Centrão”, um bloco formado por parlamentares federais, filiados a diversos partidos. Historicamente, o Centrão era composto por políticos que integravam o que se costumava chamar de “baixo clero”. Hoje, seu perfil está mais diversificado. Com muitos votos, tem poder para pautar votações e, com oportunismo e esperteza, sempre levar vantagem em tudo.

Numa perspectiva histórica, o Centrão pode ser comparado ao grupo de deputados que na Revolução Francesa (1789) sentavam-se no centro do Parlamento, entre a esquerda (os jacobinos) e a direita (os girondinos). Eram representantes de pouca expressão ideológica, que, por suas posições políticas movediças e vacilantes, ficaram pejorativamente conhecidos como o “pântano”. Sem uma ideologia política definida, seus interesses variavam conforme as circunstâncias e os temas a serem votados.

No Brasil, embora o Centrão tenha se notabilizado nos últimos anos, sua origem remonta aos tempos da Assembleia Nacional Constituinte (1987), quando era integrado por uma expressiva bancada de deputados conservadores que barravam as tentativas de mudanças mais à esquerda. Depois de aprovada a Constituição, o grupo perdeu sua relevância, em meio às desavenças político-eleitorais.

Daí para frente, ficaram anos nas sombras, contentando-se com cargos de terceiro e quarto escalões, que no Brasil são milhares. Dessa forma, os presidentes da República conseguiam atravessar seus mandatos, valendo-se do antigo, mas eficaz, “toma lá, dá cá”, para aprovar medidas de interesse do governo. Em meio a tudo, o Centrão agia como uma geleca ideológica, pronta para se amoldar e adaptar à ala política que lhe fosse mais conveniente no momento.

Tudo vinha sem muita novidade até que, com a eleição da ex-presidente Dilma, o caldo entornou devido à sua falta de traquejo para o jogo político. Consta que Dilma sequer recebia os deputados do Centrão. Não demorou muito para que caíssem nos braços de Eduardo Cunha e passassem para a linha de frente do parlamento. A partir de então, nada mais poderia ser aprovado sem o apoio daquele grupo.

Com a queda de Cunha, o Centrão perdeu o seu espaço de poder. Agora, com as eleições à vista, voltam ao protagonismo da cena política, como objeto de desejo de vários candidatos, ávidos por angariar o precioso tempo de propaganda eleitoral no rádio e TV, que de gratuita não tem nada.

No fundo, o Centrão está intimamente ligado ao presidencialismo de coalizão, em que o governo precisa costurar todo tipo de acordos para obter o apoio dos partidos (a tal “base aliada”), sob pena de não conseguir aprovar seus projetos. E, assim, como disse Fernão Lara Mesquita (“Estadão”, 25/7/18), políticos e candidatos “se viabilizam” inviabilizando o futuro do País.

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