João Francisco Neto: O inimigo público

Em 1882, o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) publicou a peça de teatro “Um Inimigo do Povo”, que em pouco tempo se tornaria um clássico. O texto lida com profundas questões do caráter humano, como verdade, moral, ética, corrupção, falsidade, conflito entre o coletivo e o individual, etc. Na obra de Ibsen, um dos maiores mestres da dramaturgia moderna, entra em cena o tormentoso drama das pessoas comuns, postas em confronto com o interesse das maiorias. 

O enredo da peça se passa numa pequena cidade-balneário da Noruega, onde um pacato médico, ao denunciar a poluição das águas causada por um curtume, passa rapidamente de mocinho a vilão, tornando-se o “inimigo do povo”.  Inocentemente, o médico achava que, ao fazer a denúncia, teria o apoio da população. Entretanto, passa a sofrer uma forte reação, assim que o prefeito e os vereadores percebem que, sem a renda do balneário turístico, as contas da cidade sofreriam uma ruína.

Por isso, as autoridades locais foram radicalmente contrárias à publicação da denúncia. Contudo, o médico vai adiante e faz o anúncio público: as águas termais estavam seriamente contaminadas e vinham provocando doenças nas pessoas. O efeito da denúncia é devastador; o médico é acusado de ser um visionário, e de não ter provas da acusação; a população reage contra ele e passa a considerá-lo um inimigo do povo.

Num instante, todos ficaram contra o denunciante: o prefeito, porque administrava a estação de águas; os vereadores, porque não queriam reconhecer que não fiscalizavam nada; os investidores, porque não queriam ter prejuízos; o povo, porque não queria perder seus empregos; os donos do curtume, porque não queriam gastar para eliminar a contaminação e, muito menos, parar as suas atividades. O médico percebeu que estava sozinho naquela empreitada.

A peça é um libelo da luta solitária de um homem detentor de uma verdade importante, mas incômoda para a maioria. O médico não se afasta de suas convicções morais, mesmo após ter perdido o emprego, ver a sua casa apedrejada pelo povo e ter sido tentado por suborno. Ao final, já na condição de inimigo público, o médico reconhece ter feito uma descoberta muito mais grave do que a contaminação das águas: era a poluição moral daquela comunidade, totalmente envolta na mentira e na hipocrisia.

Quando do seu lançamento, a peça se transformaria num sucesso imediato em toda a Europa, e principalmente em Paris, que dominava a cena cultural da época. Além disso, daria margem a inúmeras releituras e adaptações, por parte de grupos políticos que lhe atribuíam as mais variadas conotações político-ideológicas.

Não raro, essa história salta da ficção para a realidade. No Brasil, basta ver o caso das pequenas cidades que são praticamente “capturadas” por grandes empresas, altamente poluidoras do meio ambiente, mas que “geram” empregos e contribuem para o aumento da receita tributária do município.

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