João Francisco Neto: Deserto de ideias

Às vésperas das eleições gerais, o povo ainda não conseguiu vislumbrar nenhuma proposta de governo positiva e convincente, que consiga retirar o Brasil do atoleiro em que se encontra. Passados quase 30 anos da aprovação da Constituição de 1988, não surgiram novas lideranças políticas, nas quais o povo possa depositar sua confiança. Não se trata de “salvadores da Pátria”, porque nesses a população já não acredita mais.

No longínquo ano de 1933, ainda sob os reflexos das Revoluções de 30 e 32, o político e estadista Oswaldo Aranha, desencantado com o nível do debate e das relações políticas da época, diria sua mais famosa frase: “o Brasil é um deserto de homens e ideias”. Homem de grande espírito público e detentor de vasta cultura, Oswaldo Aranha nem de longe imaginaria até onde ainda iríamos descer. Se é que politicamente já paramos de descer.

Na atual corrida presidencial, com 13 pré-candidatos, há propostas de todo tipo, mas quase todas repetindo o óbvio e prometendo o que já sabem que não vão cumprir. Vale observar que muitos partidos, tentando se livrar de uma herança histórica desfavorável, mudaram de nome, passando a adotar uma nova denominação, que traz em si uma mensagem positiva. Porém, que ninguém se engane; a mudança ficará somente no nome.

Nunca o eleitorado brasileiro esteve tão desencantado como atualmente. Em recente pesquisa do Ibope, 59% dos eleitores declararam que ainda não têm candidato para presidente da República. Outros 29%, alegando que “todos os candidatos são corruptos”, pretendem anular o voto ou votar em branco. E mais: 56% disseram que não iriam votar, caso o voto não fosse obrigatório. É um cenário desanimador, bem longe da euforia que normalmente antecede uma eleição presidencial.

No balaio de gatos em que se transformou a política nacional, quem realmente poderia representar o povo e atender aos seus anseios? Que político teria competência para pacificar a nação, mergulhada num crescente clima de ódio e intolerância? Quem seria capaz de promover a retomada do crescimento e da geração de empregos? Que partido político poderia assumir a liderança do país e conduzi-lo em harmonia para um futuro melhor? Não há essas respostas, e os debates eleitorais estão aí para confirmar esse deserto de ideias.

O momento é oportuno para resgatar o exemplo de Diógenes, filósofo grego da antiguidade clássica, que perambulava pelas ruas de Atenas, sempre portando uma lamparina acesa, à procura de um homem honesto e virtuoso. Consta que teria morrido com quase 90 anos, sem encontrar o que tanto procurava. De lá para cá, não mudou muita coisa.

Por aqui, ainda teremos de sobreviver ao bombardeio de mentiras e meias-verdades da propaganda eleitoral “gratuita”. Depois que os vencedores tomarem posse é que veremos, mais uma vez, que eles pouco ou nada tinham para oferecer. Como diz o megainvestidor Warren Buffet, só quando a maré está baixa é que podemos ver quem estava nadando sem roupas.

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