João Francisco Neto: O discurso e a prática

Nas campanhas eleitorais, há no Brasil uma tendência à formulação de promessas grandiosas e extremamente interessantes. Sempre ficamos com a impressão que, a cada eleição, todos os problemas do País serão resolvidos de vez. Seja lá quem for o vencedor, a corrupção será eliminada (o eleito sempre se julga mais honesto); haverá geração de empregos para todos (o eleito sempre se preocupa com esse drama), os problemas da saúde pública serão solucionados e todos serão bem atendidos, etc. Mas, no final, nada muda.

Há uma aparente vitória do discurso sobre a prática, pois embora todos saibam que os políticos nunca falam (toda) a verdade, boa parcela do povo ainda continua acreditando (ou fingindo que acredita) neles. Isso vem de longe. Em 1889, com o advento da República, parecia que tudo ia mudar no Brasil. Havia eleição para todos os cargos políticos, mas as escolhas eram fraudadas para atender aos interesses das classes dominantes, representadas pelos “coronéis”.

A Revolução de 1930 prometia mudar esse estado de coisas. Houve, de fato, algumas mudanças, porém outras coisas continuaram na mesma e algumas até pioraram, com Estados e Municípios governados por interventores nomeados. O presidente da República ditava as regras por meio de decretos, ainda que houvesse lei para tudo.

Com a promulgação da Constituição de 1988, o povo teve a breve sensação de que finalmente tínhamos alcançado um outro patamar de civilização, tamanha era a quantidade de direitos previstos. E tanto era assim que, desde logo, foi chamada de a “Constituição Cidadã”.

Como sempre, logo se viu que na prática as coisas não eram bem assim. Como diz a sabedoria popular, o papel aceita tudo. Entretanto, é necessário reconhecer que houve, sim, uma sensível melhora em relação aos aspectos de cidadania e dos direitos sociais. Mas muita coisa ficou pelo caminho, apenas na boa intenção do texto da lei e dos constituintes.

Este é um grave problema com o qual temos de nos defrontar: o abismo que existe entre o prometido pela lei (e pelos políticos) e o que realmente acontece na vida real das pessoas. O mundo das leis (e dos políticos) é uma maravilha, promete-se de tudo para todos, porém na prática, as coisas são bem outras, repita-se. A verdade só aparece depois das eleições.

Em plena corrida eleitoral, a primeira mudança poderia começar desde já: as campanhas eleitorais poderiam ser muito mais baratas, caso os candidatos prometessem menos e realizassem mais. Em séculos de história, isso sim é que seria uma grande inovação e uma ruptura com o atual modelo político de mentiras, enganação, atraso, e muita corrupção.

Seria uma espécie de reencontro com a verdade, tão esquecida e abandonada por aqui. Mas, a julgar pelo teor dos “debates”, entrevistas e declarações dos candidatos, não será nesta eleição que isso ocorrerá.

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