João Francisco Neto: Os efeitos do poder

Os efeitos do poder sobre as pessoas é um fenômeno que há muito vem sendo estudado, e não foram poucos os autores que se debruçaram sobre o assunto. O historiador inglês Lord Acton dizia que “o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. O fato é que, invariavelmente, certos efeitos são sempre observados nas relações que envolvem o poder de uma pessoa sobre as outras.

O poder faz com que a pessoa deixe de levar em conta a opinião e o sentimento dos outros, passe a julgar os demais de forma superficial, agir de maneira mais hostil e impulsiva, ser menos cortês, etc. Há casos em que o poder desencadeia situações que resvalam para a violência pura e simples, ocasiões em que vem à tona uma tormentosa pergunta: seria o ser humano mau por natureza?

Em 1971, Philip Zimbardo, professor de psicologia da Universidade Stanford (EUA) realizou uma pesquisa audaciosa até os padrões atuais. Por meio de anúncios em jornal, Zimbardo recrutou um grupo de estudantes, “brancos e saudáveis”, que concordaram em submeter-se a uma experiência de encarceramento, que ficaria conhecida como o “Experimento da Prisão de Stanford”.

Zimbardo selecionou 24 jovens, que foram divididos em dois grupos: um grupo formaria a guarda do presídio, e o outro seriam os presos. O próprio professor Zimbardo participaria da experiência, na condição de “supervisor do presídio”.  Um dos objetivos do experimento era verificar o comportamento das “pessoas normais”, num ambiente submetido a uma rigorosa hierarquia de poder – uma prisão -, em que há uma forte tendência à desumanização das pessoas.

A previsão era que a experiência se estendesse por duas semanas, porém as coisas rapidamente saíram de controle e poucos dias depois o experimento teve de ser interrompido. Logo nas primeiras 24 horas, os “guardas” passaram a humilhar e abusar psicologicamente dos “prisioneiros”, que assumiram uma postura passiva e submissa. Por sua vez, os “guardas” se mostraram inflexíveis, mesquinhos e até maldosos, a ponto de provocar uma greve de fome nos “prisioneiros”.

Ao final, Zimbardo chegaria à conclusão que a força da situação podia ser muito mais poderosa do que a personalidade do indivíduo, e que o mal nem sempre é fruto de ações de pessoas malvadas; pode ser o resultado da ação de pessoas boas, que, burocraticamente, pensam estar cumprindo seu dever. É a “banalidade do mal”, de que falava a pensadora Hannah Arendt.

A amplitude desse estudo tem sido estendida para explicar os casos de funcionários simples e cordiais que, alçados a uma posição de poder sobre os seus antigos colegas, passam a agir como tiranos impiedosos. Infelizmente, tanto o serviço público quanto a política estão cheios desses tipos pequenos, que, no poder, revelam-se autoritários e arrogantes. Esse é mais um dos aspectos que devemos analisar nesse período das eleições.

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