João Francisco Neto: O voto útil

Em pleno período de campanha eleitoral, o eleitor brasileiro, além fazer a sua opção pelo candidato preferido, tem de pensar em estratégias para uma eventual votação no segundo turno, para o cargo de Presidente da República. Como nem sempre o candidato em quem inicialmente votamos consegue ir para o segundo turno, entra em cena o chamado “voto útil”, principalmente num cenário em que há tantos candidatos na disputa.

O voto útil nada mais é, então, do que uma estratégia utilizada nas disputas do segundo turno, quando o eleitor acaba optando por escolher o candidato “menos pior”, de acordo com as suas convicções políticas. O eleitor opta por determinado candidato simplesmente para impedir a eleição de outro, que, a seu ver, seria mais inadequado ainda. Dessa forma, o cidadão procura dar alguma “utilidade” ao seu voto; daí o nome “voto útil”.

Trata-se de um processo de decisão que acaba por tomar um tempo considerável de cada eleitor. Para formar sua convicção num eventual segundo turno, o eleitor, além de se inteirar das propostas de cada candidato, fica sempre de olho nas pesquisas eleitorais, para conferir as chances que cada candidato tem para chegar com sucesso na reta final.

Para o norte-americano Eric Maskin, professor de Harvard e Nobel de Economia (2007), nos sistemas eleitorais de dois turnos, as pesquisas de intenção de voto acabam por assumir um protagonismo no processo eleitoral, deixando as propostas em segundo plano. Isso ocorre porque muitos eleitores direcionam suas preferências a partir dos resultados das pesquisas. O eleitor tende a focar mais naqueles candidatos que ele acredita ter mais chances de vitória, reduzindo mais ainda a possibilidade dos demais candidatos que largaram atrás.

Embora ressalve que nenhum sistema eleitoral é perfeito, Maskin observa que essa é uma das principais distorções apresentadas pelo sistema de dois turnos: o eleitor acaba por atribuir um valor exagerado às pesquisas, na medida em que ele precisa delas para “conhecer” o voto dos outros e assim decidir como ele próprio vai votar num eventual segundo turno.

Na atual campanha eleitoral, o voto útil tende a ocupar um lugar de destaque, em virtude do número elevado de candidatos que disputam na mesma raia política, e que se encontram embolados na mesma faixa de intenção de votos. Isso dá margem a inúmeras combinações e arranjos políticos para o segundo turno. Nunca será por demais esquecer que, para a maioria dos partidos políticos, o que conta mesmo é “chegar lá”, e para isso não importa com quem serão feitas as alianças.

Diante deste cenário, torna-se até compreensível que uma grande parcela do eleitorado – desiludido e sem esperança – opte pelo voto em branco, pelo voto nulo ou pela abstenção. Porém, numa eleição, é ilusório achar que haverá o chamado “não-voto”, pois todo aquele que não vota, de alguma forma, aceita e contribui para o provável resultado. Assim, não há como “lavar as mãos”, já que, paradoxalmente, o eleitor que não vota também está votando.

Categorias: Artigos