João Francisco Neto: A Marcha da Insensatez

Às vésperas das eleições gerais, o Brasil vive um período sombrio de sua História, pois qualquer que seja o presidente eleito, esse não terá as condições adequadas para pacificar os ânimos, superar a crise e retomar o caminho do crescimento.

Há um crescente clima de discórdia e intolerância política, agravado pela polarização do tipo “eles contra nós”. Não há sinais de que isso vá ter fim com a realização das eleições; ao contrário, o descontentamento dos perdedores tende a um acirramento dos ânimos e da própria crise política. A oposição sempre terá um papel importante no jogo político, desde que não atue de forma destrutiva e irresponsável.

Em meio a tudo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) acaba de publicar uma carta aberta em que clama pela união dos eleitores contra os candidatos radicais, para evitar a piora da crise política. Em determinado trecho, FHC diz literalmente que: “Ainda há tempo para deter a marcha da insensatez. Como nas Diretas-já, não é o partidarismo, nem muito menos o personalismo, que devolverá rumo ao desenvolvimento social e econômico.” Do alto de sua longa vida pública, FHC procura, então, serenar os ânimos.

Imediatamente, os termos da carta trouxeram à tona a importante obra da historiadora norte-americana Barbara Tuchman (1912-1989), “A Marcha da Insensatez”, publicada em 1984. O livro mostra como os governantes, em determinadas circunstâncias, cometem erros catastróficos que resultam em prejuízo para todo um povo.

Para exemplificar, o livro aborda em detalhes quatro acontecimentos centrais da História: como foi possível que os troianos tenham puxado o célebre cavalo de madeira para dentro da sua própria fortaleza; como os papas do período do Renascimento não foram capazes de detectar os movimentos que mais tarde resultariam na Reforma Protestante; como a arrogância dos nobres ingleses forjaria a guerra de independência das colônias americanas; e, por fim, como os americanos foram capazes de se afundar no atoleiro da guerra do Vietnã.

Para Tuchman, não é raro que a incerteza se apodere de governantes e autoridades, para em seguida serem acometidos por um estranho fenômeno que os leva a tomar atitudes totalmente contrárias aos interesses da coletividade. Como consequência, grandes nações podem entrar em colapso porque seus líderes não conseguem tomar as decisões indispensáveis para a correção de rumos. A esse fenômeno que ocorre no meio político, Barbara Tuchman chamou de “a marcha da insensatez”.

A autora procura compreender as razões para a insensatez. Para isso, recorre à leitura dos grandes clássicos da teoria política, como Platão, por exemplo. Ao final, percebe que, desde sempre, houve advertências para o risco de a insensatez se impor por causa dos delírios da alma humana, como o poder pelo poder, a preguiça, e a corrupção. Como tudo isso permanece muito vivo no ambiente político brasileiro, podemos antever por aqui uma verdadeira escalada da insensatez.

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