João Francisco Neto: Votando com os pés

Em tempo de eleições, vale a pena relembrar a curiosa expressão “votar com os pés”, que, a princípio, pode nos conduzir a um entendimento equivocado. Na verdade, quando os cidadãos, descontentes com a situação política e econômica local, optam por viver em outra região ou país, estão simplesmente “votando com os pés”.

Trata-se de um fenômeno que sempre existiu, muito bem exemplificado pela grande marcha de trabalhadores americanos que se deslocaram para outros estados, nos anos que se seguiram à profunda depressão econômica provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Hoje no Brasil o que vemos é uma expressiva fuga de talentos e de empreendedores que, descontentes com a situação atual, buscam outros países para trabalhar e viver, dentro de padrões mínimos de decência e bons serviços públicos.

As notícias da imprensa nos dão conta do crescimento ininterrupto do número de profissionais liberais, empreendedores, médicos, jornalistas, entre tantos outros, que, dia a dia, embarcam para países como Portugal e a Austrália, que abrem suas portas para talentos e profissionais qualificados, de qualquer nacionalidade.

Os que saem são pessoas que nada mais esperam do País, cansadas de tanta roubalheira, corrupção, desrespeito, além de uma carga tributária abusiva. Houve um tempo em que no Brasil o povo nutria uma forte esperança de que teríamos um futuro brilhante: era a época do chamado “País do Futuro”. O tempo passou, muita coisa mudou, mas aquele futuro promissor nunca chegou, e, pela situação atual, temos certeza de que tão cedo não chegará.

Hoje, esse sonho se dissipou por conta do mar de ineficiência e falta de oportunidades, principalmente para as gerações mais jovens, que de certa forma acabam sendo empurradas para fora do País. As migrações sempre foram uma alternativa para os tempos difíceis; o diferencial agora é a mudança do perfil das pessoas que procuram outros países para viver. Agora esse contingente é constituído por pessoas com boa formação e qualificação profissional.

Assim, ao “votar com os pés”, o cidadão procura fixar residência num país que mantenha uma carga fiscal adequada à oferta dos serviços públicos, tais como boas escolas, segurança para a família, transportes públicos eficientes, saúde, meio ambiente saudável, etc. Trata-se de um fenômeno que, obviamente, não se restringe ao caso brasileiro.

Atualmente, na União Europeia (EU) há uma intensa movimentação de pessoas que, “votando com os pés”, saem à procura de um dos Estados-membros que lhes ofereça as condições desejáveis de vida. É isso aí: muita gente, cansada de votar em seguidas eleições e não ver nenhum resultado positivo, acaba “votando com os pés”, isto é, fazendo suas malas e partindo para lugares mais promissores.

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