Carlos Carmello: Felizes, saudáveis e desocupados

Nada escapa ao mundo digital. Carreiras tradicionalíssimas como Economia e Administração requerem profissionais que entendam também de finanças  digitais e familiaridade com a criptomoeda, o dinheiro digital que circula, viceja e se multiplica na rede mundial de computadores. Cada segmento do mercado de trabalho cria novas funções a cada dia para se adaptar as exigências digitais ou aproveitar suas novas oportunidades de negócio.

São baixíssimas as chances dos trinta milhões de desempregados e subempregados brasileiros voltarem ao mercado de trabalho, justamente por não terem qualificação tecnológica. As funções a que estão habituados e sabem realizar, geralmente, mecânicas, são extintas a cada hora, enquanto novas funções que requerem mais do que força e algum estudo são criadas a cada ano. Mesmo assim, o futuro do trabalho, ou o trabalho do futuro será sempre sombrio. O cenário da tabuleta indicado não haver vagas será cada vez mais comum.

O pensador israelense, Yuval Harari, prevê que nas próximas décadas mais da metade da população do planeta será, profissionalmente, inútil. E nesse contingente de pessoas sem ocupação estará gente com muito estudo, como médicos e advogados, e de muita técnica como motoristas profissionais. Afinal, qual empresa de transporte irá contratar motorista humano havendo ônibus e caminhões autônomos que não cometem infração de trânsito, que não atropelam pedestres, que não provocam acidentes e mortes?

O adolescente que não tiver domínio neymariano de uma bola ou inspiração e talento para compor e cantar música sertaneja ou qualquer outro talento criativo deve ponderar com muita cautela para sua opção profissional. O emprego e o desemprego estão alí na esquina  Mais desemprego do que emprego.

Robôs farão diagnósticos mais rápidos e certeiros do que médicos, incisões mais precisas do que cirurgiões e será mais seguro adquirir remédios para tratamento e convalescência em uma farmácia robótica do que das mãos de um farmacêutico humano. O estado de espírito de um engenheiro pode afetar os cálculos da obra. Mais seguro é o cálculo de um engenheiro de inteligência artificial.

Sabe-se lá em quanto tempo é possível o surgimento de um gênio musical que componha algo com a mesma grandeza da Nona Sinfonia. É certo que depois de amanhã, um computador produza milhões de composições com o mesmo grau de variações e combinações tonais experimentado por Beethoven. E todas elas vão tocar os sentimentos e emocionar o ouvinte do mesmo jeito que Beethoven emociona.   

No final do século a idéia do senador Eduardo Suplicy, da Renda Mínima, terá triunfado. Segundo Harari, haverá uma casta muito pequena de gente com domínio tecnológico e mente criativa a produzir coisas, serviços, cultura e lazer e nós, ainda sapiens,  sem ocupação, recebendo algum dinheiro para consumir e usufruir.

O emprego, mecânico ou intelectual, será osso no novo planeta que está bem pertinho, quando máquinas serão confundidas com homens e os superarão. Por isso, os formadores de mão de obra “inventam” novas profissões e funções a todo momento. Estudo do Serviço Nacional de Aprendizado Industrial concluiu que em cinco anos surgirão trinta novas ocupações relacionadas à tecnologia.

Nesse cenário, trabalho garantido terá o professor, cuja a missão é ensinar. Porém, desde que seja o professor online, com capacidade de ensinar milhões de alunos transmitindo diretamente no lóbulo cerebral do aprendizado deles imagens e áudio do conteúdo.

Somente biólogos e matemáticos conseguirão entender a sociedade do futuro com clareza e se mover com desenvoltura nela. E não serão necessárias explicações históricas, geográficas, sociológicas, antropológicas e religiosas de como o mundo funciona. O mundo estará domado e percebido pelos novos sentidos humanos, o orgânico e o matemático e o sentimento que irá contar de fato é a felicidade 24 horas obtida com um comprimido e não com os prazeres fugazes de um orgasmo, de um bom prato, de uma promoção a gerência. Seremos felizes, saudáveis e desocupados. E deverá valer a pena, afinal, há setenta mil anos, depois de criar os deuses, o homo busca a vida eterna, a felicidade e o ócio. No século XXII, uma nova espécie de hominídeos nos espera.

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