João Francisco Neto: Violência e condomínios

Todos os anos, algumas consultorias estrangeiras elegem as melhores cidades do mundo para se viver. Em geral, nos dez primeiros lugares estão cidades do Canadá, da Austrália e da Suíça, principalmente. Para se chegar a esse resultado, as consultorias avaliam a qualidade de vida de centenas de cidades, valendo-se de determinados critérios indicativos.

Assim, a pesquisa avalia os índices de criminalidade, o grau de liberdade dos cidadãos, a estabilidade política do país, as facilidades de transporte e locomoção, a rede de saúde, o clima, a gastronomia, entre tantos outros, como o respeito e a segurança para os pedestres. As cidades consideradas boas e civilizadas são aquelas em que o pedestre pode andar tranquilamente, sem se preocupar com a constante ameaça de veículos e motoristas truculentos.

Na América do Sul, a cidade mais bem posicionada costuma ser Montevidéu, a pacata e civilizada capital do Uruguai. As grandes cidades brasileiras nunca obtiveram uma boa classificação, como nós mesmos podemos testemunhar. Mas, nem sempre foi assim, pois já tivemos cidades muito agradáveis para se morar.

Eram cidades seguras, em que ninguém se sentia prisioneiro dentro de sua própria casa, o trânsito ainda obedecia a algumas regras, e as moradias não eram cercadas por altos muros. Hoje, o “sonho de consumo” das classes médias daqui é morar dentro de um condomínio fechado. E, pasmem, esse modelo já chegou às pequenas cidades.

Porém, o condomínio fechado foi a forma que parte da população brasileira encontrou para fugir do caos urbano e da violência que se instalaram no Brasil nos últimos tempos. Entretanto, essa não é uma solução definitiva, pois não é possível alojar todo mundo dentro de condomínios de casas.

Os políticos e os administradores públicos deveriam refletir sobre essa aparente contradição do nosso país, que envolve desenvolvimento econômico, mas baixa qualidade de vida nas cidades. Sem muita pesquisa, já se vê que no Brasil a preocupação maior sempre foi com a economia, e não exatamente com o bem-estar e a qualidade de vida da população.

O Uruguai, com poucas indústrias, atividades produtivas centradas nos serviços, na pecuária e na exportação de carne bovina e lã, é uma das menores economias do continente. Dito assim, era para ser um país atrasado, mas não é. A população goza de um bom nível cultural, e, na média, vive em padrões socioeconômicos bem superiores ao nosso.

O exemplo dessa pequena e civilizada nação vizinha poderia nos trazer algumas preciosas lições, no campo do bem viver. Nossos políticos nem precisariam mais viajar para a Suíça para ‘conferir” como a população de lá vive tranqüila e segura; bastaria que fossem ao Uruguai, logo aqui, na fronteira com o Rio Grande do Sul.

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