João Francisco Neto: O rei está nu

As fábulas e os contos de fadas, embora aparentemente tratem de historinhas infantis, podem revelar importantes lições para todos nós, crianças e adultos. A fábula da cigarra e da formiga faz uma apologia aos valores do trabalho, ao condenar uma cigarra indolente, que não gostava de trabalhar e apenas se divertia. Durante o período da Revolução Industrial, em que o trabalho humano foi explorado ao limite, essa fábula foi bastante valorizada.

Além de Esopo e La Fontaine, outro grande autor desse tipo de histórias foi o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), responsável por muitas das fábulas que hoje conhecemos. Na verdade, o que faziam esses autores era recriar antigas lendas e histórias populares, conhecidas desde a antiguidade. Um dos contos mais interessantes chama-se “A Roupa Nova do Imperador”.

Nessa história, um rei muito vaidoso encomenda a dois costureiros vigaristas a confecção de uma roupa nova, que, além de muito bonita, deveria ter uma qualidade rara: ela só poderia ser vista pelas pessoas mais inteligentes, ficando invisível para os tolos e incompetentes. A título de adiantamento, os dois trapaceiros receberam uma generosa quantia de ouro.

Como a roupa demorava muito para ficar pronta, o rei resolveu visitar o atelier de costura. Na mesa de trabalho nada havia, mas o rei, imerso na mais pura vaidade, e temendo passar por burro e incompetente, ficou pasmo diante de tanto esplendor e beleza. Diante do vazio, os seus súditos (puxa-sacos, na verdade) também ficaram maravilhados.

Em seguida, o rei resolveu sair às ruas, num desfile monumental, para exibir a todos a sua nova e magnífica roupa, que, afinal, tinha custado uma verdadeira fortuna. E assim foi: o desfile prosseguia solene, e, como ninguém queria passar por tolo ou incompetente, todos fingiam estar encantados com a beleza da roupa nova do imperador. Até que uma criança, inocentemente alheia àquele mundo de falsidade e puxa-saquismo, gritou, em alto e bom som: “Vejam, senhores, o rei está nu!”.

As crianças sempre desempenharam um papel importante nesse tipo de história, pois ainda não incorporaram os hábitos dissimulados da sociedade dos adultos. Um dos maiores exemplos disso está no livro “Alice no País das Maravilhas” que, quando foi lançado, era tido apenas como um livro infantil. Mais tarde, descobriu-se que havia de tudo naquele livro: filosofia, lógica, falta de lógica, crítica à sociedade, à religião, à educação, etc.

Numa das passagens mais interessantes, Humpty Dumpty, uma criatura em formato de ovo, conversa com Alice. Humpty Dumpty diz que, quando usa uma palavra, ele pode fazer com que ela signifique o quer que seja. Alice se espanta com tal afirmação, ao que Humpty Dumpty retruca: a questão não é exatamente essa, e sim saber quem manda. Sob esse aparente e inofensivo diálogo está a síntese do mundo da arbitrariedade e do autoritarismo: qualquer coisa pode significar tudo, dependendo de quem manda. Dessa forma, tem muito “rei” que continua andando nu por aí, com o total apoio da sua turma, que faz de conta que admira a sua “bela roupa”.

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