João Francisco Neto: Os inúteis

Em pleno curso da 4ª Revolução Industrial, e em meio aos avanços da inteligência artificial e da robótica, a humanidade se preocupa com os empregos de amanhã; ou com a falta deles. O temor é que, com tanta robotização e automação, dentro de algumas décadas não haja emprego para todo mundo, restando uma legião de pessoas excluídas do mercado de trabalho e sem nenhuma perspectiva de emprego futuro. Na visão do escritor israelense Yuval Noah Harari, essas pessoas formariam uma nova classe: a dos inúteis.

Os temores de que o avanço da ciência poderia causar uma onda de desemprego em massa remontam ao tempo da Revolução Industrial (século 19). De fato, se por um lado aumentava a produtividade da economia, por outro os empregos de qualificação mais baixa eram mesmo afetados. A novidade agora é que, com a revolução tecnológica, as ocupações de qualificação mais alta também deverão ser atingidas.

Wolfgand Streeck, pesquisador do Instituto Max Planck (Alemanha), faz uma abordagem sombria sobre esse assunto: para ele, a inteligência artificial e a robotização vão fazer com a classe média o que a mecanização fez com a classe operária nos séculos 19 e 20, ao substituir a mão de obra menos qualificada por máquinas. Por outro lado, muitas empresas que se automatizam também crescem empregando cada vez menos trabalhadores, gerando o estranho fenômeno do “crescimento sem empregos”.

Para isso, o que vale então é extrair o máximo possível de toda a parafernália da indústria 4.0, como robôs, algoritmos, inteligência artificial, impressoras 3D, internet das coisas, a nanotecnologia, etc. As grandes corporações, justamente aqueles que mais se beneficiam das novas tecnologias, deveriam colocar na sua pauta de responsabilidades a questão da preservação dos postos de emprego. Afinal, de nada adianta produzir muito se não houver um mercado de consumidores dispostos – e com dinheiro – para comprar.

A perda dos empregos tradicionais poderá ser parcialmente compensada pela criação de novas ocupações que envolvam a cooperação entre a inteligência artificial e o trabalho humano. O problema é que esses novos empregos exigirão altos níveis de qualificação, não acessíveis para a maioria dos trabalhadores desempregados, que não terão as habilidades necessárias para uma eventual mudança de função.

Neste cenário não muito distante, tenderá a aumentar a chamada classe dos inúteis, ou seja, aquelas pessoas sem emprego, que não conseguem se reinventar ou sequer se readaptar diante das novas e constantes exigências tecnológicas do mercado de trabalho. Yuval Harari resume esse drama em três questões: o que fazer para impedir a perda de empregos; o que fazer para criar empregos novos; e o que fazer se, apesar dos esforços, a perda de empregos superar consideravelmente a criação de novos empregos.

Caminha nesse sentido o bombástico anúncio do fechamento de uma fábrica da Ford no ABC paulista, com a dispensa de milhares de funcionários que dificilmente conseguirão outro emprego similar; ou mesmo qualquer outro emprego.

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