Com dívida de R$ 1,4 bilhão, Grupo Moreno decide neste mês se coloca indústria à venda

Líder rural teme o negócio e torce pela recuperação financeira e continuidade dos atuais controladores

 

Segundo informações da Bloomberg, agência internacional notícias econômicas e de grupos corporativos, publicadas pela UOL, no dia primeiro, o Grupo Moreno vai discutir neste mês de abril a possibilidade de colocar a venda uma de suas unidades industriais de açúcar e álcool para quitar seu passivo, estimado por representantes da própria família Moreno em R$ 1,4 bilhão, sendo bancos os principais credores.

A notícia trouxe um misto de temor e alívio no setor sucroalcooleiro de Monte Aprazível, onde se concentram os principais fornecedores de cana de duas das indústrias, a Central Energética Moreno, de Monte Aprazível, e a Coplasa, de Planalto. A terceira unidade está localizada em Luis Antônio, cidade próxima a Ribeirão Preto, origem da família Moreno. O Grupo Moreno, nas três usinas, tem capacidade para esmagar treze milhões de toneladas.

Segundo fornecedores ouvidos pela reportagem, em razão do equilíbrio financeiro da unidade de Luis Antônio, caso haja decisão pela venda, deve ser negociada a Central Energética ou a Coplasa, embora o presidente do grupo, Carlos Moreno, na publicação do UOL, não faz qualquer menção sobre a unidade a ser eventualmente negociada.

Produtores menores e proprietários que arrendam terras para o grupo, que preferem não se identificar, consideram que teriam mais facilidades em receber e negociar créditos com novos controladores. Já o presidente da Associação dos Plantadores de Cana, Juliano Maset, se mostra bastante cauteloso com o negócio. “Eu torço pela recuperação financeira do Grupo. Antes das dificuldades atuais, a Moreno sempre pagou bom preço e sem atraso. Tanto a Moreno, como a Petribú, da antiga Água Limpa, sempre honraram seus compromissos com os fornecedores. A Moreno tem presença muito forte no município, participa da conservação de estradas, de pontes e foi o caminhão pipa dela o primeiro a chegar para combater o incêndio da farmácia, na madrugada da terça-feira. O município pode perder isso”

Para Maset, o Grupo Moreno teria compromisso com a cidade e ele teme que um novo controlador tenha apenas interesse em explorar a cana. “A cana plantada em Monte Aprazível tem alto teor de açúcar que chama a atenção de todo mundo e corremos o risco de uma das usinas caírem em mãos erradas, que explorem os fornecedores, dificultando ainda mais a nossa situação.”

Desde 2011, segundo entidades do setor, somente em São Paulo, setenta usinas encerraram as atividades e outras cinquenta estão em regime de concordata ou recuperação judicial, o que revela a dificuldade de investimentos nacionais no setor e deixa incomodado Juliano caso o impasse venha a ser resolvido capital estrangeiro;

Mas é a multinacional chinesa Cofco, que na região atua em Sebastianópolis do Sul, com  potencial para a transação. Em setembro do ano passado, os dois grupos chegaram a discutir negociação envolvendo as duas unidades na região.

O setor aponta o conjunto de fatores internos e externos como responsável pela situação de penúria das usinas destilarias. O excesso de plantio em países asiáticos derrubou o preço do açúcar em 60% de 2011 até aqui, a preocupação com a saúde tem diminuído a demanda no mundo e, no cenário interno, o controle no preço da gasolina, até 2015, prejudicou a demanda por etanol.

 

Sem luz no fim do túnel

A situação do setor sucroalcooleiro é tão sombria que até o presidente da Aplacana (Associação dos Plantadores de Cana e Outras Culturas da Região de Monte Aprazível), Juliano Maset, tem dificuldade em vislumbrar o futuro próximo da atividade. A confiança é alta e o empurra ao otimismo, enquanto a realidade o chama para a reflexão acerca da dificuldade de “ver a luz no fim do túnel”.

A situação financeira do Grupo Moreno e a possibilidade de venda de uma unidade do grupo na região se somam a outras preocupações de Juliano com a descapitalização dos fornecedores, com reflexos diretos nas roças.

Segundo ele, a queda na produtividade das lavouras se agrava, enquanto aumenta a defasagem no preço da matéria prima que bate nos 17%, segundo ele, capaz de melhorar a rentabilidade e investimentos na lavoura.

Juliano diz que a Orplana tem disseminado informações de que vai haver uma grande procura por parte das usinas pela matéria-prima do fornecedor, uma vez que 80% dos canaviais encontram-se velhos e com baixa produtividade. Segundo ele, a expectativa é de que o quilo da ATR (teor de açúcar por tonelada) seja maior do que a safra 2018, quando o acumulado para o estabelecimento do preço final da safra passada aponta para R$ 0,5771.

Juliano diz que a expectativa é de que os preços sejam maiores, tanto que os produtores associados à Aplacana nesse ano renovaram cerca de seis mil hectares dos canaviais. “Existe um otimismo, só que por um lado os insumos usados na cana em 2019 aumentaram em torno de 30% e a produtividade da safra 2018 teve uma baixa de 27%”, conta.

A baixa produtividade das lavouras é a maior  preocupação de Juliano. Ele conta que a produção da Aplacana na safra 2017 foi algo em torno de 1,8 milhão tonelada. A safra 2018 ficou em torno de 1,680 milhão de tonelada e a estimativa para 2019 está em torno de 1,4 milhão de toneladas. Essa queda, segundo Juliano, se deve a fatores climáticos “que não vem colaborando para uma melhora na produção e também porque os produtores não estão investindo em suas plantações em razão de não suportarem o alto custo”.

Quando a reportagem de A Voz pediu que Juliano fizesse uma análise do futuro do setor, ele respondeu que “até o momento a gente não vê uma luz no fim do túnel. O setor canavieiro a cada ano que passa está ficando pior. Hoje existe um conflito entre Orplana, que representa os plantadores de cana, e a Única, que representa os usineiros, sobre o parâmetro Consecana, que é o que remunera o ATR, cujo valor está 17% defasado”.

Juliano diz que a Aplacana tem como desafio para as próximas safras fazer com que o produtor consiga aumentar a sua produtividade e diminuir os custos no plantio, implantando projetos de meiose, que barateia o plantio, além de usar mudas sadias, bem como aposta na sistematização para a colheita não sofrer perdas que ultimamente ocorre na colheita mecanizada, “pois o mapa de colheita estará num programa de Agrocad que será transmitido para a colhedora, diminuindo o desperdício”, explica.

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