João Francisco Neto: A velha política

As eleições gerais de 2018 promoveram uma ampla renovação, tanto nos quadros parlamentares quanto nos executivos: grande parte da bancada de deputados federais e senadores agora é composta por novos parlamentares, muitos deles em primeiro mandato. Além disso, partidos políticos que há décadas vinham no comando do Congresso Nacional foram simplesmente desalojados dos espaços de poder por novos partidos, sem muita ou nenhuma tradição.

Diante desse quadro, criou-se então uma forte expectativa de mudança. Afinal, há tempos que o povo andava farto (e revoltado) com os vícios da chamada “velha política”. Tudo indicava que havia chegado a hora de deixar para trás os maus hábitos das velhas raposas políticas, como a corrupção, o patrimonialismo (tratar a coisa pública como se fosse particular), o compadrio, o nepotismo, o caciquismo, etc.

Ao que se tem visto, não será tão simples assim fazer com que as velhas raposas políticas abandonem seus costumes, ou, em linguagem mais direta, que “deixem o osso”. Aí está o embate político para a arregimentação de apoio para a aprovação da Reforma da Previdência, que tem colocado em pé de guerra o atual governo e setores do Congresso Nacional. O governo acha que há muitos parlamentares que querem permanecer nos métodos da velha política.

E que “métodos” seriam esses? Basicamente é o velho e conhecido expediente do “toma lá, dá cá”, por meio do qual o governo angaria apoio em troca de cargos na administração e empresas públicas, a ser ocupados por pessoas indicadas pelos partidos e parlamentares da base.

Com razão, muitos haverão de perguntar: mas que mal haveria nisso? Afinal, o modelo que vigora no Brasil é o “presidencialismo de coalizão”, em que o governo reúne apoio por meio de um grupo de partidos políticos que lhe dão sustentação nas votações de matérias de seu interesse. Obviamente, que esses partidos políticos desejam, de alguma forma, participar do governo.

Ocorre que, em grande parte, os indicados para importantes cargos da administração pública nem sempre são as pessoas mais preparadas para o exercício das funções. Na maior parte dos casos, o que vale mesmo são os interesses dos partidos, o que resulta na nomeação de pessoas que atuam na defesa dos interesses partidários, nem sempre republicanos. A essa altura, o interesse público vai ficando em segundo plano.

Além disso, para conseguir mais apoio parlamentar, os governos podem lançar mão da cooptação fisiológica das verbas públicas, ou seja, a liberação generosa de emendas parlamentares a serem distribuídas para as bases eleitorais de apoio.

Enquanto tudo estava na fase dos discursos e das promessas, todo mundo concordava com a superação dos antigos métodos de fazer política. Agora se vê que as coisas não serão tão simples, assim, pois a mera renovação dos quadros políticos por si só não resultou também na renovação dos métodos. Não por acaso, os debates sobre a Reforma da Providência estão parados.

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