Especialistas são contra fracionamento maior das férias escolares proposto por Dória

Medida não teria efeito no aprendizado, é questionável como benefício a professor e atrapalha férias da família

 

O anúncio do governo que, a partir de 2020, vai dividir as férias em quatro períodos na rede pública estadual de ensino dividiu opiniões entre envolvidos na área da educação. O governo aposta que a medida vai impactar na aprendizagem dos estudantes e diz que vai garantir a efetiva realização dos 200 dias letivos por ano, porém, especialistas em pedagogia questionam a efetividade da mudança

Até este ano, o calendário das escolas estaduais prevê 15 dias de férias em dezembro, e os meses de janeiro e julho completos. Docentes têm 15 dias de férias em julho e 15 em janeiro, isso sem contar os feriados e recessos.

A nova proposta, anunciada pelo governador João Dória, prevê que as férias de dezembro sejam encurtadas, iniciando logo depois da véspera do Natal. As de julho deverão ser reduzidas para 15 dias e outros dois pequenos períodos de descanso deverão complementar os 30 dais dos professores, um no feriado de Tiradentes e outro em outubro.

A professora Luciana Sartori Souza diz que a intenção do governo é evitar grandes perdas de aprendizagem durante férias de um mês. Para o aluno, ela acha que será bom, porque ele descansará entre os bimestres, mas para o professor  que atua também na rede privada, acha que não.

A professora Milene Lúcia Baldin diz que as férias em abril e outubro dará fôlego tanto para professores quanto para alunos manterem o ritmo da aprendizagem. “Não vejo impacto na vida do professor, pois com esse período de descanso entre os bimestres poderemos nos reorganizar melhor para os bimestres seguintes”.

Especialistas

A psicopedagoga Ena Aparecida Marques Garcia tem dúvidas se na realidade brasileira o fracionamento de férias funcionará. “As férias vão além de professores e alunos, tem também os pais que tiram suas férias no mesmo período dos filhos. Na nossa realidade não acho que seja interessante. Em outros países eles adéquam as férias de acordo com as estações do ano, mas não é o caso aqui”.

Além disso, ela alerta para o fato do aluno demorar um tempo para retomar o ritmo do aprendizado quando volta de férias. “Aumentar os períodos de férias só fará aumentar esse tempo de retomada do aprendizado”, diz.

A educadora Maria Clara Carvalho Batista também não acredita que o fracionamento das férias escolares beneficie o aprendizado do aluno. Pelo contrário. “Acho que pode ser até prejudicial. É sabido que quando a criança volta das férias demora um pouco para se conectar novamente com o conteúdo escolar, por isso acho que quanto mais período de férias maior o prazo para os alunos se reconectarem com o conteúdo”, justifica. Para ela, mais apropriado é fazer com que a gestão escolar cumpra à risca o calendário escolar.

A psicóloga Sibel Maria Alves Prates de Oliveira não concorda com Dória que a divisão de férias melhore o aprendizado. “Esses poucos intervalos de férias não dá para descansar. O descanso para ser efetivo deve ser de pelo menos uns 20 dias. Esses intervalos seriam um falso descanso tanto para professores quanto para alunos, porque o organismo leva de 2 a 3 dias para desacelerar e entrar em ritmo de descanso. Uma semana seria tempo insuficiente para um descanso real”. Ela ressalva que o fracionamento terá utilidade se for usado na capacitação do professor.

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